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PARA ONDE CAMINHAMOS?

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Por: AUREMÁCIO CARVALHO

 

Sem dúvida, e independente de cor partidária ou qualquer tipo de militância política, o Brasil atravessa um momento político extremamente grave, com radicalismos de todos os lados- esquerda, direita, centro ou nenhum desses chavões  desatualizados, redes sociais com ares de donos da verdade, blogs pagos por partidos políticos e outros interessados, para difamar políticos e outras autoridades, fake news, agressões e ameaças  verbais e até físicas- ovos, pedras, tiros, a políticos e membros do STF.

Analistas políticos, juristas e outras pessoas interessadas no bem do Brasil, avaliam que os tiros disparados contra a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no interior do Paraná, como o momento mais agudo do radicalismo político no País. Para eles, o funcionamento da democracia está em risco neste ano eleitoral, com possibilidade de haver rupturas.

O episódio- ainda na esfera da apuração policial, é bom ressaltar, reflete o clima acirrado e de falta de diálogo entre os segmentos sociais e políticos no país, aliás, para ser verdadeiro, clima criado em grande parte pelos próprios políticos e partidos, como temos assistido diariamente.

Ou seja, o episódio não difere muito das invasões e destruição de propriedades, dos vandalismos nas passeatas, tudo em nome da liberdade de expressão e da livre ação dos chamados “movimentos sociais”, aliás, no Brasil, tão manipulados politicamente e por outros segmentos e apoiados também como reação dos “oprimidos”.

É a tese aceita sem discussão, do “ou nós, ou eles”; “a minha verdades não pode ser contestada”, coisa de torcida de futebol, mas, não de um debate sério e de respeito às diferenças ideológicas ou políticas, como se espera num ambiente democrático e sadio.  

O cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG (G1), vê na falta de diálogo entre as forças políticas um dos grandes empecilhos para o fim do clima bélico. “Democracia funciona bem quando esquerda e direita não têm grandes diferenças entre si e conseguem conversar.” Generais- de pijama e da ativa- abertamente pregam o retorno das Forças Armadas, caso a situação “degenere a um clima pré-1964”, de nefasta memória para quem viveu o episódio da “revolução” de 64.

Na verdade, o recente episódio reflete mais um atentado à Democracia, não ao Lula com todos os seus defeitos. Não precisamos de outro atentado armado e fardado. Com a eleição que se aproxima, com certeza, em lugar do debate de ideias e propostas para o Brasil, vamos continuar, por certo, assistindo as baixarias e dossiês contra a honra dos candidatos- traições, corrupção, falcatruas, sem provas ou sem tempo de provar as acusações.

O que interessa é destruir a reputação do adversário, e não conhecer e refutar suas ideias ou propostas; ou, o que pior e recorrente- expor as minhas (que não tenho) ao debate aberto. O fim é alcançar o poder com todas suas benesses- imunidade penal, nomeação de parentes e asseclas, locupletamento do cargo público, que vem desde a carta de Pero Vaz de Caminha.

De acordo com o Índice de Democracia de 2016, compilado pela revista britânica The Economist, o Brasil possui uma nota geral de 6,96, estando na categoria de “democracia imperfeita”. O desempenho do Brasil em participação política é comparável ao de Malauí e Uganda (o leitor sabe onde ficam?), considerados “regimes híbridos”, enquanto o desempenho em cultura política é comparável ao de Cuba, considerado um regime autoritário.

A média geral do país é inferior à do Uruguai (nota 8,17), do Chile (nota 7,84) e da Argentina (nota 7,02) na América do Sul. Dentre os BRICS, a Índia (nota 7,74) e a África do Sul (nota 7,56) possuem desempenho melhor. O Brasil é somente melhor que a China (nota 3,14) e a Rússia (nota 3,31), se é que se pode falar em democracia nesses dois países.

O Brasil é percebido como um país extremamente corrupto, ocupando o 79º lugar no Índice de Percepções de Corrupção- a Rússia é 151ª. O Brasil ocupa a 161ª posição no Ranking de Presença Feminina no Poder Executivo, dentre os 186 países analisados pelo Projeto Mulheres Inspiradoras (PMI)–2018.

Talvez, toda essa realidade explique o atual clima de “guerra política” que vivemos em todos os setores, inclusive no Judiciário (STF). Vivemos o “presidencialismo de coalizão”- em outros termos, “o toma lá, da cá”, “uma mão lava a outra”, “mala de dinheiro não prova nada”, e não, como acontece em países mais sérios, coalizão de políticas e ideias, para o bem do país.

A atual situação do Brasil é comparável a um “filme de terror sem fim” devido às crises política e econômica, disse o jornal britânico Financial Times em editorial:”incompetência, arrogância e corrupção quebraram a magia do país, que poderá enfrentar tempos mais difíceis; “um país em que os poderosos se colocam acima da lei”. (tradução direta).

O Brasil está, na atualidade, em uma encruzilhada: de um lado uma violência chocante e impune, sobretudo no RJ e já se espalhando pelo resto do Brasil; de outro, miséria, desemprego (13,2 milhões de trabalhadores), fome e desesperança em geral, com uma possível mudança desse quadro, mesmo que mudem os seus dirigentes.

Em resumo: o  Brasil vive a mais difícil etapa de sua história política. Os escândalos se multiplicam deixando uma lista diminuta de pessoas idôneas no desempenho de sua função pública. As fraudes, falcatruas, manobras escusas de administração são exibidas nos noticiários continuamente deixando pouco ou  quase nada de tempo para se falar dos políticos ou administradores públicos honestos (deve haver algum).

Parece que estamos no mato sem cachorro; sem faca e sem queijo nas mãos, e apenas um desejo, o de que tudo mude. O horizonte não é promissor. Contudo poderíamos apurar mais nosso senso crítico, nossa alfabetização política, aprendendo a votar, pelo menos. O cidadão que troca seu voto por um par de sapatos, óculos ou camisa de futebol, ou outro favor, está, de fato, vendendo seu futuro e de seu país.

“O Brasil será uma das maiores, uma das mais formidáveis nações do mundo, quando todos os Brasileiros tiverem a consciência de ser Brasileiros.”-Olavo Bilac. Será pedir muito? (*) Auremácio Carvalho é advogado.

 

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário



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