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Cínico eleitor!

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Por: Eliseu Silva

 

 

Dizem que o eleitor brasileiro tem a incrível capacidade de se esquecer em quem votou nas últimas eleições. Algumas pessoas até o classifica de “coitadinho”, por ter limitações da memorização em não lembrar sobre os candidatos que escolheu para representa-lo na vida pública. Para mim, isso não passa de pura enganação por parte do eleitor. Ele sabe muito bem em quem votou, até porque, sabemos de que o ser humano tem a capacidade memorável de reter fatos ou situações vivenciadas há muito tempo. Não é atoa que muitos rotulam certas pessoas com “memória de elefante”. Claro, nada contra esse enorme mamífero paquiderme que se lembra por décadas dos aromas e das vozes de indivíduos de outras rotas migratórias, de lugares especiais e de habilidades apreendidas.

Eu acredito piamente que o eleitor brasileiro lembra muito bem em quem votou, e só faz de esquecido até em pesquisas de opinião pra não ser chamado também de vigarista. Porém, vigarista de meia-tigela, e que caiu na lábia de outro vigarista maior, – o famoso conto do vigário. Por isso que não se vê políticos/vigaristas sendo denunciados em delegacia comum por eleitores trapaceados, pois, ao denunciar o politico, o eleitor confessaria a Justiça ser tão vigarista quanto aquele que o trapaceou. Tornar-se-ia uma mera confissão de culpa e ao mesmo tempo expor como ridículo e otário.

Vejamos: O vigarista maior sem dúvida cabe a grande parte dos políticos brasileiros que se especializou na arte de enganar outras pessoas. Eles não medem as consequências dos seus atos para obter a eleição, o Poder. De boa aparência e transmitindo confiança, é esperto e tem a capacidade de assumir a tática e a cor necessária do camaleão para lidar com a situação do momento. Isso vale para o político do sexo masculino e feminino. Tornam-se charmosos e persuasivos. Mas, e o eleitor? Após este pegar R$ 10 ou R$ 20 reais, telhas ou tijolos e depositar o voto na urna, quando se achava ser o melhor, mais esperto, crendo estar fazendo um bom negócio, porém se vê ludibriado e chupando dedo.

Moço! Grande parte dos nossos políticos é a verdadeira personificação de embusteiros, trapaceiros, velhacos, charlatões, golpistas, fraudadores e até estelionatários. Acompanhado a isso, vem o desinteresse, falta de entendimento e a própria cegueira politica por parte do eleitorado, que termina votando novamente nos mesmos vigaristas, desta vez, claro, mais graduados na arte de enganar. Infelizmente é assim, pois até hoje tem gente que adora endeusar bandidos e discorda das operações da Polícia Federal contra políticos. Para muitos, isso não passa de perseguição pessoal ou partidária. Ora! Lembrar-se das pessoas é algo simples, desde que acompanhemos atentamente o que elas estão fazendo. Com os políticos não deve ser diferente. Errou! Passa não ser mais confiante do nosso voto. Ano que vem tem eleições gerais e a urna é a melhor hora e oportunidade para punirmos esses 171, devolvendo a eles com a mesma moeda, o golpe recebido. Contudo, infelizmente, a maioria se reelegerá. Como num passe de mágica ou no balançar de um pêndulo, grande parte do eleitorado será hipnotizada.

O que fazer então? O povo brasileiro precisa de conhecimento para não ser mais enganado. Precisa ler e entender o que está lendo. Precisa aprender a lutar para si mesmo e depois lutar pelo coletivo. Parar de achar que sentar e cruzar as pernas no final de semana debaixo de uma árvore para tomar umas e outras e comer carne de terceira é o ápice da vida. Como diria meu amigo Onofre Ribeiro: “Coitados, verdadeiros escravos do sistema que lhes dá apenas a participação popular ao sufrágio a cada dois anos, e ainda não sabem tirar proveito.” Resumindo: Expressar sua indignação nas eleições seguintes e amenizar o Brasil da corrupção é o mínimo que o eleitor deve fazer. Quanto ao problema da “memória do voto” não precisa de ‘m…‘ nenhuma de prescrição médica com Vitamina B12, mas sim educação política e caráter por parte do cínico eleitor.

Elizeu Silva é jornalista em Mato Grosso: E-mail: elizeulivramento@gmail.com

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário



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