Opinião
A IMPUNIDADE VAI ACABAR?
Opinião
Por: Auremárcio Carvalho
O foro por prerrogativa de cargo ou função garante a mais de 54 mil brasileiros o direito de serem julgados em cortes especiais- (São 54.990 brasileiros com direito à prerrogativa, sendo 38.431 por determinação da Constituição Federal e 16.559 previstos pelas constituições estaduais). Não há dúvida de que, para cerca de 700 deles, ser julgado no STF se converteu em privilégio – daí a expressão popular “foro privilegiado”.
As razões para isso são conhecidas: 1- A morosidade dos processos no STF, resultado de vários fatores, sobretudo da sobrecarga. Concebido como tribunal constitucional com onze ministros, o Supremo simplesmente não tem estrutura para arcar com a avalanche de inquéritos e ações penas contra políticos. Ou seja, agir como um Juiz de primeira instância.
Em seu voto, o Ministro Barroso divulgou que havia 357 inquéritos e 103 ações penais em andamento no STF até o final de 2016 – antes, portanto, da delação da Odebrecht e outras “malas de dinheiro”.
O prazo médio até o recebimento de uma denúncia era de 565 dias. Houve 60 prescrições/impunidades. Um inquérito levava até a decisão final (“trânsito em julgado”) 797 dias em 2016. Já as ações penais que antes eram julgadas em 65 dias, passaram a tramitar em média por 1.377 dias, ou seja, 3,7 anos. Na média, pouco mais de 5% dos inquéritos resultam em ação penal. Como no Brasil, de cada 100 inquéritos, 08 chegam ao final e 03 viram ação penal.
Ou seja, sem foro privilegiado, 97% dos criminosos estão leves, livres e soltos. Como cabe ao Supremo julgar parlamentares, a ideia de foro privilegiado é associada, por grande parte da população com a noção de impunidade.
O discurso igualmente é adotado por nomes à frente da Operação Lava Jato, como o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. De acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), apenas 0,78% das 515 decisões em ações penais no Supremo foram favoráveis à acusação.
Em comparação, 24% das decisões foram favoráveis à defesa, não recebidas ou prescreveram. Na sua proposta, o Min. Barroso propõe duas soluções: 1ª)- a prerrogativa de foro deveria ficar restrita apenas a crimes cometidos enquanto o político estivesse no mandato e forem relativos ao cargo; 2ª)- o julgamento deveria ser feito pelo tribunal que concluísse a apuração do inquérito, para evitar-se o que o Min.
Celso de Melo chamou de “elevador”- o sobe e desce de instâncias judiciais que resulta em prescrição ou impunidade. Concluída a instrução do processo, se o réu, como acontece, renunciar ou mudar de status- deputado federal para prefeito, por exemplo, o processo continua na instância judicial original, seja o STF, STJ, TJ´s dos Estados. Já há maioria para essa posição: 07 votos a 01 (voto parcial).
O Min. Dias Tofóli- que toda rede social e mídia informara que pediria vista do processo, e assim, suspendendo o julgamento até, no mínimo, depois do carnaval- (no Brasil, aliás, tudo começa a funcionar apenas após as folias de Momo), cumpriu a promessa. Na verdade, vai esperar a votação na Câmara Federal de proposta aprovada pelo Senado que acaba com todo foro privilegiado, excetuando-se apenas, os Chefes do Poder- Presidente da República, Presidentes da Câmara e Senado e Presidente do STF.
A desculpa esfarrapada do Min. Tofóli, (depois de prestar contas de sua “produção jurisdicional” por cerca de 50 minutos, falatório maçante e aborrecido a todos os presentes) foi de que tinha um “compromisso no posto médico do STF” e que precisava “refletir melhor”. Nos EUA, Inglaterra, Itália, Alemanha, Suíça, e outros países da Europa, talvez porque os juízes e outras autoridades não têm muito tempo para consultas médicas em horário de expediente, não existe a “jabuticaba brasileira”, do tal foro privilegiado.
Neles, todos são iguais perante a lei, expressão que existe na Constituição de um país conhecido abaixo da linha do Equador, “abençoado por Deus e bonito por natureza”- diz Jorge Ben…. Não acredito que a Câmara vá “cortar na própria carne” aprovando o fim da impunidade de mais de 200 Deputados que estão encrencados na Justiça, botando a corda no próprio pescoço.
Aliás, a proposta original é para acabar com o foro privilegiado, mas devido a articulações nos bastidores do Congresso, a tendência é expandir esse direito para ex-presidentes. O objetivo é proteger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em primeira instância por corrupção e lavagem de dinheiro, e manter a proteção ao presidente Michel Temer,investigado na Operação Lava Jato, além de Collor, Sarney e outros medalhões/medalhonas.
Além de Toffoli, faltam os votos dos ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, que está de licença médica. Destes, Gilmar Mendes já adianta nas suas interrupções da fala dos colegas, que votará contra. O que não é novidade para todos, dada a atuação do Ministro em casos emblemáticos- RJ e em suas constantes visitas-“fora da agenda”- ao não menos enrolado Michel Temer- vulgo, Presidente da República.
Já o Min. Alexandre de Moraes- jogando no lixo sua carreira acadêmica de constitucionalista (sua obra sobre a Constituição é modelo de lucidez), propôs uma restrição menor do foro, divergindo do relator Barroso no sentido de que todos os crimes comuns cometidos após a diplomação no mandato, mesmo que não relacionados ao mandato, devam ser abarcados pelo foro privilegiado, enquanto infrações antes da diplomação no mandato, não.
Não nega suas ligações com o PSDB- sempre em cima do muro. O tema “foro privilegiado” está na ordem do dia. Um país que pretende colocar-se entre as principais nações do planeta não pode oficializar a pecha da corrupção ou da ineficiência no seu sistema judicial ou político.
Em 2016, o Brasil colocou-se em 45º lugar no indicador anual de corrupção da “Transparência Internacional”-(G1,12/11/16). Mas, na lista de 206 países pesquisados pelo Banco Mundial, caiu de posição assumindo o 106º lugar.
Em resumo: o foro privilegiado, é um proteção legal, ou foro por prerrogativa de função. Quem está sendo resguardado, portanto, é a própria ordem jurídica, ou o próprio eleitorado, porque esse foro especial decorre da função que aquelas autoridades exercem.
É a função pública, é o mandato que lhes foi conferido pelo povo, que está sendo protegido por essa norma. Já o privilégio é um benefício à pessoa, e isso a Constituição proíbe, enquanto que a prerrogativa se justifica pela necessidade de proteger a função que essa pessoa exerce.
Mas, jamais para acobertar criminosos, corruptos ou ladrões, que usam o cargo ou mandato para fugir à lei, premiados pela impunidade. “A fraude é o braço esquerdo do homem: o braço direito é a força. Muitos homens são canhotos, eis tudo.” Machado de Assis.
(*) Auremácio Carvalho é Advogado.
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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