Opinião
Surdos-mudos no Brasil
Opinião
Na antiguidade, as pessoas que nasciam com qualquer deficiência eram consideradas inaptas para viver em comunidade e por isso tinham uma realidade de sobrevivência muito diferente daquelas nascidas dentro do que era considerado padrão de normalidade para época.
As pessoas que nasciam com deficiência física eram mortas ou abandonadas e destes, aqueles que conseguiam sobreviver, eram levados para divertir os nobres, como bobos da corte ou nos circos. Os surdos eram vistos como pessoas ineducáveis e eram escondidos por suas famílias pela vergonha de ter gerado uma criança fora dos padrões de normalidade. A sociedade marginalizou também os deficientes mentais que eram tratados como “possuídos do demônio” ou eram queimados como bruxas.
Eles eram privados de serem livres e até mesmo do direito à vida.
Com o passar dos anos, surgiram hospitais de caridade e asilos que abrigavam e cuidavam das pessoas com deficiência.
No Brasil, em 1854, D. Pedro II criou o Instituto Benjamim Constant para atender as pessoas cegas, mas foi em 1857 que D. Pedro II fundou o Instituto Nacional de Educação aos Surdos (INES) ao trazer um francês chamado Eduard Huet para ensinar Libras aos surdos. Esse dia era 26 de setembro passando a ser esse dia considerado o Dia do Surdo no Brasil. Essa escola funciona no Rio de Janeiro, atende aproximadamente 600 alunos e é mantida pelo Ministério da Educação e Cultura.
Hoje ainda encontramos barreiras e preconceitos, mas felizmente o cenário está mudando a cada ano, no que refere ao acesso à educação, saúde e profissionalismo.
Ser surdo se refere a pessoa que não escuta ou escuta muito pouco. Mudo é aquela pessoa que não fala ou perdeu a fala. A maioria dos surdos mudos tem suas cordas vocais em perfeito estado de funcionamento. Só não falam porque não houve a intervenção precoce ( preferencialmente até os 6 meses de vida), não fizeram o uso de aparelhos auditivos e nem mesmo a reabilitação auditiva com uma fonoaudióloga.
Entre as causas de uma criança nascer surda estão o nascimento prematuro, baixo peso ao nascimento, uso prolongado de medicamentos ototóxicos, infecções congênitas, hereditariedade, tumores e traumas.
A maioria dos surdos escutam sons de forte intensidade e graves (como um trovão, batida de porta). Alguns conseguem ouvir a voz e escutar a fala ao telefone. Como a visão, a audição é classificada em graus e quanto maior o grau da perda auditiva, maior será sua privação.
São direitos dos surdos-mudos: 1-reabilitação auditiva através do SUS (para mim, a mais importante);2- passe livre municipal, estadual, sendo cada um com suas regras;3- pagamento de meia entrada em cinemas, shows, espetáculos;4- fila preferencial;5- cotas em concursos púbicos;6- isenção de IPI na compra de veículos;7-RG de PCD (Pessoa com Deficiência);8-benefícios do INSS;-9- direito à educação ( com acessibilidade de acordo com seu modo de comunicação);10- desconto de até 80% na passagem do acompanhante do surdo.
Embora pessoas com perda auditiva em um só ouvido, as mesmas não se enquadram na definição técnica como as concedidas às pessoas com perda auditiva nos dois ouvidos.
LIBRAS significa Língua Brasileira de Sinais. É uma forma de comunicação de natureza gestual motora a qual os surdos usam para transmitir suas idéias, fazer seus pedidos, contar fatos, enfim, a maneira como eles conseguem se comunicar.
A lei nº.10436 tornou a LIBRAS a segunda língua oficial do país e além disso, os órgãos públicos vinculados ao governo têm por obrigação ajudar na inclusão dos surdos e na popularização da LIBRAS.
A principal dificuldade do surdo mudo é a comunicação. Isso porque não são em todos ambientes que há tradutores de LIBRAS e desta forma, fica restrita a comunicação dos surdos nos hospitais ( para referirem onde dói), nas farmácias ( para expressar qual o remédio que necessita), nos restaurantes ( para fazer seus pedidos), nas escolas ( não são todas que tem LIBRAS) , enfim em todas as situações de vida diária onde a comunicação se faz necessária. Outra dificuldade que encontramos também é o pouco número de pessoas que falam LIBRAS.
Quando falamos em LIBRAS estamos nos referindo a acessibilidade. A acessibilidade permite oferecer a todos os diferentes a ter oportunidades iguais, independente de sua capacidade ou circunstância. Você pode acompanhar mais informações sobre perda de audição acessando @fonovanessamoraes.
Vanessa Moraes é fonoaudióloga e audiologista em Cuiabá/MT
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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