Opinião
Os impactos da moratória da soja no agronegócio brasileiro
Opinião
A rotina do produtor rural tornou-se uma constante de atualizações sobre temas que estão inseridos na pauta nacional e internacional e tem impacto no agronegócio. Um deles é a moratória da soja na Amazônia e, agora, os debates são quanto à possibilidade de extensão do pacto ambiental para regiões do bioma Cerrado.
Antes de analisarmos a posição do produtor rural nesta pauta, faz-se necessário lembrar que a moratória da soja refere-se a um pacto ambiental firmado em 2006 entre agroindústrias e organizações de defesa ambiental e renovado em 2014. Em suma, o presente pacto dispõe que a agroindústria não compraria soja produzida em regiões desmatadas no Bioma após 22 de julho de 2008.
O projeto estipula como critério para distinção dessas regiões, o monitoramento que utiliza a base de dados dos desmatamentos ocorridos no bioma Amazônia, publicados pelo PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), programa coordenado pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que faz uso de satélites para a coleta de dados.
Dito isso, discute-se atualmente a intenção de se estender a moratória da soja ao Cerrado. Um dos pontos iniciais do debate é o Projeto de Lei 4.203/2019, que dispõe sobre moratória para o desmatamento do Cerrado, com a suspensão, pelo prazo de dez anos, contados a partir da data de publicação da lei, a concessão de novas autorizações para supressão de vegetação para uso alternativo do solo no bioma Cerrado.
A possibilidade de uma nova lei com relação ao tema gera uma notória preocupação ao setor do agronegócio, dado que a região é a maior responsável pela produção agrícola do país. Mesmo com a matéria parada na Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal desde 2020, não se pode ignorar que há uma questão fundamental a ser apreciada: qual a posição que o produtor rural, que está em conformidade com os normativos impostos, deve adotar? Explica-se:
De um lado há a possibilidade de expandir a produção de forma sustentável e legal, de acordo com o rigoroso Código Florestal. De outro, há o impedimento imposto por algumas tradings, que sem nenhuma razoabilidade e de forma impositiva, simplesmente determinam ao produtor que não maximizem seu potencial produtivo sob pena de sanções econômicas.
A título de exemplo, algumas tradings publicaram por meio de sua assessoria de imprensa, textos em que dispõem que já não comprarão soja com origem de áreas desmatadas ilegalmente. Ao mesmo passo, algumas delas dispõem que a partir de 2025, também não comprarão grãos que tenham sido cultivados em áreas desflorestadas, mesmo que dentro da legalidade, com desmates realizados após 31 de dezembro de 2024.
A Associação Brasileira dos Produtores de Soja – APROSOJA, entidade representativa de classe sem fins lucrativos, constituída por produtores rurais ligados à cultura de soja, se manifestou absolutamente contrária a moratória da soja, por considerar que a legislação ambiental é mais do que suficiente para coibir o cultivo em áreas ilegais.
Ainda, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais – ABIOVE, a aplicação da moratória da SOJA pelas tradings gerará uma imensurável discriminação aos produtores que cultivam soja em áreas recém-desmatadas, o que acarretará o surgimento de uma ‘reserva de mercado’, depreciando o valor dos produtos que estejam fora dos padrões da moratória, gerando uma subclassificação depreciativa.
Diante desse cenário, o fato é que a moratória da soja impactará cada vez mais o dia a dia do produtor rural, bem como seu planejamento de expansão de cultivo a médio e longo prazo. Um motivo a mais para que produtores rurais e empresários do agronegócio mantenham-se atualizados e bem assessorados comercial e juridicamente. São fatores determinantes para a expansão com segurança, perpetuação e sucesso nos negócios do Agro.
*Thais Vieira – advogada especializada em Direito Empresarial e Compliance.
*Igor Muniz Benite – advogado com MBA em Direito do Agronegócio. Ambos são do escritório Barbero & Vieira Advogados Associados.
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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