Opinião
O impacto das ações do Sesc na vida dos mato-grossenses
Opinião
Há quatro anos, assumimos a gestão do Sistema Fecomércio/Sesc/Senac/IPF-MT e, durante esse período, enfrentamos grandes desafios, inclusive, uma pandemia, que tirou a vida de milhões de pessoas e afetou a economia mundial. As adversidades nos obrigaram a reinventar nossas estratégias e ações e, com isso, descobrir novas formas de obter resultados positivos em prol do comércio de bens, serviços e turismo do estado.
No tocante ao Sesc-MT – Serviço Social do Comércio, que atua no estado há 74 anos, trabalhamos de maneira expressiva nos cinco eixos que regem a entidade: saúde, educação, cultura, lazer e assistência. Tudo isso contemplado pelas 22 unidades do Sesc-MT espalhadas no estado, sendo quatro delas móveis: Sesc Sobre Rodas, BiblioSesc, Saúde Mulher e o OdontoSesc.
Grandes projetos foram desenvolvidos em muitas cidades do estado, como o ‘Ouça da Janela’ e o ‘Movimenta’, que contribuíram com ações de cidadania e lazer para milhares de mato-grossenses. No segmento cultural, nesses quatro anos, mais de quatro milhões de atendimentos foram feitos e, no lazer, o total foi de 3,1 milhões.
Uma das ações mais relevantes da nossa gestão é a criação do Restaurante do Comerciário, em Cuiabá e Rondonópolis. Na capital, a unidade tem conseguido entregar uma média diária de 1.500 refeições saudáveis, nutritivas, com muita qualidade e custo acessível. Desde a sua inauguração, em agosto de 2019, já foram produzidas mais de 360 mil refeições e, somente para este ano, a meta é entregar 390 mil marmitas.
Na área de saúde, os resultados também são bastante expressivos. O ‘OdontoSesc’ atendeu 139.207 pessoas nos últimos quatro anos. Para se ter uma ideia do que está sendo feito, as unidades fixas em Rondonópolis e Cuiabá (que foi reinaugurada com a ampliação de 13 novos consultórios), possuem capacidade para realizar até cinco mil atendimentos por mês, ofertando serviços de qualidade aos trabalhadores do comércio e seus dependentes.
Outra ação que merece destaque é a unidade móvel ‘Saúde Mulher’, que tem atuado em Cuiabá e no interior para auxiliar na ampliação da cobertura de exames extremamente importantes para as mulheres, como a mamografia. Durante essa gestão, 22.224 mulheres foram atendidas nas mais diversas cidades do estado.
Ainda sobre prevenção e cuidado com a saúde, trabalhamos muito para a ampliação e criação de academias do Sesc para contribuir com a qualidade de vida do comerciário e da população em geral. Foram mais de 340 mil pessoas atendidas neste período, além das sessões de pilates, com 18 mil atendimentos.
Na área educacional, as escolas do Sesc têm atendido desde a educação infantil até o ensino médio, preparando os alunos para que se tornem membros ativos e funcionais na sociedade. Atualmente, são cerca de 1.400 vagas presenciais em Cuiabá e Rondonópolis; além do atendimento no EJA (Educação de Jovens e Adultos), por meio do Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG).
Já a unidade Sesc Criança, inaugurada em novembro de 2021, foi um grande sonho realizado. Por meio dela, o trabalhador do comércio tem a oportunidade de deixar seu filho em um espaço de primeiro mundo, com todo conforto, carinho e segurança, recebendo uniforme e alimentação, em tempo integral e de forma gratuita.
Mesmo após diversas transformações de suma importância como as citadas acima, ainda não chegamos perto de mencionar todas as melhorias geradas. Encerramos este período com muito orgulho pelo trabalho realizado pelos gestores e colaboradores, que resultaram em conquistas importantes não somente para o comércio, mas para toda população mato-grossense.
José Wenceslau de Souza Júnior é presidente da Fecomércio, Sesc, Senac e Sindcomac em Mato Grosso, e comerciante há mais de 40 anos. e-mail: presidencia@fecomerciomt.org.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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