Opinião
Mulheres laranjas e as eleições 2022: o jogo sexista está prestes a virar?
Opinião
Véspera do Dia Internacional da Mulher e a luta na seara política para as pessoas do gênero feminino continua. Mesmo após 90 anos da conquista do direito ao voto e a ser votada, as mulheres ainda enfrentam grandes dificuldades para entrar e permanecer na política. Muitas são assediadas pelos partidos meses antes das eleições apenas para cumprir a cota de gênero, mas em 2022 a história deve ser outra.
As siglas partidárias estão correndo contra o tempo para recrutar mulheres que tenham expressão, audiência e, acima de tudo, votos para se colocarem na disputa do pleito para os cargos de deputada federal, estadual, senadora e governadora.
Na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, atualmente, somente uma mulher ocupa a cadeira de deputada estadual, enquanto na Câmara Municipal de Cuiabá duas vereadoras cumprem seu papel de fiscalizar as ações e contas da prefeitura. Já em Várzea Grande, a situação é um pouco melhor, três mulheres são vereadoras.
Historicamente esses números sempre foram baixos. Desde a redemocratização do Brasil, em 1988, somente 13 mulheres foram eleitas deputadas no estado de Mato Grosso. Em média, a cada 4 anos apenas 1 mulher consegue assegurar a sua cadeira no parlamento estadual.
Apesar de estatisticamente o contingente feminino brasileiro corresponder a 53% da população, segundo o IBGE, o número atual de cadeiras corresponde a apenas 15% das vagas disponíveis. As mulheres seguem sub-representadas no parlamento federal.
Seguindo o modelo norte-americano das cotas, a legislação brasileira na Lei 12.034/09 determinou que os partidos tivessem, obrigatoriamente, pelo menos 30% das chapas proporcionais formadas por candidatas e que os recursos do Fundo Eleitoral Público prestigiassem essas mulheres na mesma proporção.
Na prática, a cota de 30% não alcançou êxito esperado porque os partidos políticos, apesar da lei, enquanto instituição de poder machista burlaram a norma eleitoral, colocando candidatas chamadas “laranjas” nas chapas para cumprir “tabela” e os recursos destinados a elas eram repassados para os candidatos da chapa. A alegação era de que não conseguiam arranjar nomes femininos “competitivos” para montar as chapas.
Nas eleições de 2022 o desafio continua. Com número reduzido de vagas para candidatos, o jogo de xadrez para compor as chapas aumentaram significativamente, pois uma chapa de Deputado Federal deve ter apenas 9 candidatos (as) em Mato Grosso, sendo 1/3 de mulheres: 6 homens e 3 mulheres.
Nessa regra para se eleger 1 deputado federal na vaga direta a chapa completa deverá alcançar o coeficiente de 185 mil votos e, na média individual, 23.144 por candidato (a).
Além das dificuldades de calibrar a chapa com apenas 9 nomes competitivos eleitoralmente, testados (as) nas urnas, com tamanho e peso eleitoral (para não pôr em risco o projeto inteiro), o partido tem que encontrar para credenciar à chapa ao menos 3 candidatas fortes com esse potencial médio de votos para não frustrar o cômputo geral.
Quais ações os partidos desenvolveram até aqui para fortalecer e formar quadros femininos para alcançar essas metas eleitorais? Acredito que finalmente o fundo eleitoral servirá para financiar e garantir equidade nas disputas eleitorais ampliando o espaço feminino na política, não como laranja mas como protagonista do processo.
Em 2010, o Fundo Partidário e Eleitoral que era de 200 milhões passou a ser de 5 bilhões de reais e agora pela Resolução do TSE aprovada, além dos 30% do fundo eleitoral, existirá a contagem em dobro dos votos dado às mulheres e pessoas negras para a Câmara dos Deputados para fins de distribuição dos recursos do Fundo Partidário e Eleitoral a partir de 2023.
A lei que financiava de maneira diferente o acesso a disputa agora vai garantir também fundo partidário em dobro depois de eleitas, acesso e permanência agora têm pesos diferentes para mulheres e negros em relação aos demais candidatos.
Essa medida pode duplicar o número de candidatas e eleitas nesse nicho em 2022 para o partido obter mais recursos do fundão, espécie de bônus eleitoral e os investimentos podem até ultrapassar o mínimo de 30% nas candidatas mais competitivas.
Espera-se que com essa iniciativa possa ao menos alcançar os 30% de representação na câmara federal até 2026. Os partidos já estão desesperados atrás de candidatas para cumprirem as metas eleitorais das siglas, oferecendo “mundos e fundos”.
A bancada federal de Mato Grosso possui apenas uma mulher das 8 vagas preenchidas em 2018 e, com esse cenário, espera-se que chegue a no mínimo 3 até 2026.
As medidas inclusivas não mudarão de imediato o machismo e as altas taxas de feminicídios existentes por causa de uma cultura paternalista herdada durante mais de 500 anos de colonização.
Tais iniciativas trazem para o centro do debate, das decisões e do poder das políticas públicas em geral, a participação mais significativa das mulheres, sinaliza para uma maior equidade na representação política e sinaliza para um país mais democrático e menos misógino.
Foto: Divulgação/Laura Meireles
Suelme Fernandes é mestre em História pela UFMT e deputado estadual.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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