Agricultura

Produção de grãos cresce mais que silos e déficit de armazenagem já supera 130 milhões de T.

Publicado em

Agricultura


A deficiência da infraestrutura de armazenagem continua cobrando uma conta bilionária do agronegócio brasileiro. A defasagem entre a produção de grãos e a capacidade de armazenagem já supera 130 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Levantamento divulgado esta semana, realizado pela empresa paranaense Cogo Inteligência, estimou que os produtores brasileiros de soja e milho perderam R$ 88,3 bilhões entre 2023 e 2025 por causa da falta de capacidade para estocar a produção, obrigando a comercialização em momentos de maior oferta e, consequentemente, de preços mais baixos.

O problema ocorre justamente em um momento em que a produção nacional de grãos avança em ritmo recorde. A Conab projeta uma colheita de 353,4 milhões de toneladas nesta safra 25/26, enquanto a capacidade estática de armazenagem do país continua em torno de 220 milhões de toneladas. Na prática, a estrutura disponível é suficiente para guardar pouco mais de 60% da produção nacional, deixando um déficit superior a 130 milhões de toneladas.

A maior parte das perdas não está relacionada à deterioração dos grãos, mas à perda de renda. Sem espaço para armazenar a safra, muitos produtores precisam vender soja e milho logo após a colheita, período em que a oferta é elevada e os preços tendem a sofrer pressão. O excesso de produto nos portos também afeta os prêmios de exportação, reduzindo ainda mais o valor recebido pelo agricultor.

A situação contrasta com a observada em países concorrentes, como Estados Unidos e Argentina, onde a maior disponibilidade de silos permite aos agricultores escalonar as vendas ao longo do ano e aproveitar momentos mais favoráveis do mercado.

Segundo dados históricos da Conab, a produção brasileira de grãos cresceu 134% entre 2010 e 2023, enquanto a capacidade de armazenagem avançou apenas 53%, evidenciando que os investimentos em infraestrutura ficaram atrás da expansão da agricultura nacional.

Nos últimos anos, houve crescimento dos armazéns instalados dentro das propriedades rurais. O volume de capacidade nas fazendas passou de 20,7 milhões de toneladas em 2010 para 35,6 milhões de toneladas em 2025, uma alta de mais de 72%. Apesar disso, o avanço ainda é insuficiente para acompanhar o ritmo de crescimento das safras.

Entidades do setor defendem que a armazenagem deixe de ser vista apenas como uma estrutura complementar e passe a ser tratada como ferramenta estratégica de gestão. Além de reduzir custos logísticos, a capacidade de estocar a produção permite ao produtor escolher melhor o momento da venda, preservar a qualidade dos grãos e aumentar a competitividade da atividade.

A preocupação tende a crescer nos próximos anos. Com o Brasil consolidado como maior exportador mundial de soja e um dos principais fornecedores globais de milho, a expectativa é de continuidade da expansão da produção, o que exigirá investimentos cada vez maiores em silos, armazéns e logística pós-colheita para evitar que parte da rentabilidade obtida dentro da porteira seja perdida fora dela.

PROBLEMA SEGUNDÁRIO – O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto) lembrou que o déficit de armazenagem no Brasil não é novidade, mas segue sendo tratado como problema secundário dentro da política agrícola.

“O país já teve programas estruturados para expansão de silos e armazéns, como o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), no âmbito do Plano Safra, que previa aportes recorrentes para ampliar a capacidade estática, mas o volume efetivamente executado ficou abaixo da necessidade apontada pelo próprio setor, estimada em cerca de R$ 15 bilhões por ano para equilibrar o sistema”, comentou Rezende.

“O que se observa, na prática, é um descompasso entre o crescimento da produção e o ritmo dos investimentos em infraestrutura. Enquanto a safra de grãos avançou mais de 130% na última década, a capacidade de armazenagem cresceu em torno de 50%, segundo séries da Conab. Nesse intervalo, o déficit deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural, com impacto direto na formação de preços ao produtor”.

“Há programas públicos e linhas de crédito específicas voltadas ao setor, mas a execução ainda é insuficiente por representantes da cadeia. O PCA, principal instrumento federal para financiamento de armazenagem, prevê apoio à construção e modernização de estruturas, porém a demanda por crédito supera a oferta disponível em cada ciclo do Plano Safra, o que limita a expansão mais acelerada da capacidade instalada”, analisou o presidente do IA.

“O resultado desse desequilíbrio aparece na ponta. Sem espaço para estocar a produção, o produtor é obrigado a concentrar vendas no período de colheita, quando o mercado está mais pressionado. Na avaliação de entidades do setor, o tema segue sem coordenação de longo prazo entre governo, indústria e cooperativas, o que mantém o déficit de armazenagem como um dos principais gargalos logísticos do agronegócio brasileiro”.

O problema, na avaliação de Isan Rezende, é que falta execução coordenada e continuidade das políticas públicas. “Enquanto nós, produtores, seguimos produzindo safras recordes que empurram o país para frente, continuamos sem o apoio necessário para garantir a infraestrutura mínima. Isso não é falta de diagnóstico, é falta de prioridade na execução”, completou o presidente do IA.

Fonte: Pensar Agro



COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Agricultura

Exportação recorde de soja pressiona portos e expõe falta de armazéns

Publicados

em


O Brasil deverá exportar o volume recorde de 114 milhões de toneladas de soja em 2026, quase 5% acima da maior marca já registrada, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). O avanço dos embarques aumenta a pressão sobre armazéns, estradas, ferrovias e terminais portuários em um ano de produção elevada.

Entre janeiro e julho, o País exportou 84,8 milhões de toneladas da oleaginosa, cerca de 5 milhões a mais que no mesmo período de 2025. Com as 9,74 milhões de toneladas previstas para agosto, o volume acumulado poderá chegar a 94,5 milhões antes do início do último quadrimestre.

A movimentação já aparece nos portos. Santos encerrou o primeiro semestre com 92,8 milhões de toneladas de cargas, crescimento de 5,05% em relação ao mesmo período do ano passado. A soja liderou as exportações do complexo, com 25,61 milhões de toneladas embarcadas.

O desafio começa antes da chegada aos terminais. A estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta uma produção de 347,4 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026. A capacidade estática de armazenagem era de 233,8 milhões de toneladas no fim de 2025.

A diferença chega a 113,6 milhões de toneladas. Isso não significa que todo esse volume ficará sem espaço, porque os armazéns são esvaziados e reutilizados ao longo do ano. O descompasso, porém, obriga produtores e comercializadoras a movimentar rapidamente a safra, principalmente quando a colheita de soja coincide com a retirada do milho armazenado.

Sem estrutura suficiente nas propriedades e nas regiões produtoras, parte dos grãos precisa seguir para os portos mesmo quando o momento de venda não é o mais favorável. O resultado pode ser aumento do frete, formação de filas, ocupação dos pátios e menor poder de escolha para o produtor.

Nos terminais, o crescimento do volume exige controle sobre temperatura, umidade e tempo de permanência dos grãos. Atrasos na chegada dos navios ou interrupções no embarque podem provocar perda de peso, aquecimento da massa armazenada e deterioração da qualidade.

Segundo Franklin Oliveira, responsável pelo setor de indústria e portos da AGI Brasil, os terminais precisam funcionar com maior precisão para evitar que o acúmulo de carga provoque perdas ou paralise a operação. Sistemas de aeração, medição de temperatura e acompanhamento dos estoques permitem identificar problemas antes que o produto seja embarcado.

Outro ponto crítico é a mistura de lotes, conhecida como blending. O procedimento combina grãos com características diferentes para alcançar o padrão definido no contrato de exportação. Quando a operação é mal executada, o exportador pode entregar soja de qualidade superior sem receber remuneração adicional ou sofrer desconto por enviar um produto abaixo da especificação.

A rastreabilidade também ganhou importância. Terminais e armazéns precisam comprovar a origem, o volume e a qualidade dos estoques, sobretudo quando os grãos servem de garantia para operações de crédito ou investimentos dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros).

O avanço das exportações mostra que os portos brasileiros vêm aumentando sua movimentação. O risco está na falta de crescimento equivalente da armazenagem e dos acessos terrestres. Para o produtor, gargalos nessa cadeia significam frete mais caro, espera para descarga e pressão para vender a produção em momentos de maior oferta.

Fonte: Pensar Agro



COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTE

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA