Agricultura
Newcastle avança em Santa Catarina e ameaça exportações brasileiras
Agricultura
A confirmação de um terceiro foco da doença de Newcastle no Oeste de Santa Catarina, nesta terça-feira (27.10), ampliou a preocupação com os efeitos da crise sanitária sobre a avicultura brasileira. Em dez dias, a enfermidade foi identificada em três estabelecimentos comerciais de uma das principais regiões produtoras de aves do País. Cinco mercados internacionais já impuseram restrições aos produtos brasileiros, enquanto as autoridades intensificam a vigilância nas propriedades rurais para impedir a disseminação do vírus.
O novo caso foi confirmado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em uma propriedade de Nova Erechim, município que já integra a área de emergência zoossanitária estabelecida no Oeste catarinense. Os registros anteriores ocorreram em Nova Itaberaba, no dia 18 de outubro, e em Coronel Freitas, no dia 24. A proximidade entre os focos exige atenção redobrada em uma região caracterizada pela concentração de granjas, cooperativas, frigoríficos e produtores integrados.
O primeiro foco foi identificado em uma criação comercial de perus de corte, com 6.526 aves. O lote foi eliminado e enterrado conforme os protocolos sanitários, e a propriedade passou por procedimentos de limpeza e desinfecção. O estabelecimento já se encontra em período de vazio sanitário, quando permanece sem aves para reduzir o risco de permanência do agente infeccioso.
Em Coronel Freitas, o despovoamento sanitário também foi concluído, enquanto prosseguem os trabalhos de desinfecção. Em Nova Erechim, o novo foco envolve aproximadamente 9.600 aves. A ocorrência foi detectada durante a vigilância intensificada, mesmo sem a manifestação de sintomas clínicos no plantel.
A Portaria Mapa nº 962/2026 declarou emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios: Nova Itaberaba, Nova Erechim, Coronel Freitas e Águas Frias. A medida permite concentrar esforços de fiscalização, controle do trânsito de animais, investigação epidemiológica e contenção da doença.
A Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) coordena, em conjunto com o Mapa, o monitoramento das propriedades na região. Entre os dias 20 e 26 de outubro, foram vistoriados 133 estabelecimentos comerciais e 551 propriedades com aves de subsistência. Quatro barreiras sanitárias permanecem em funcionamento, com fiscalização e desinfecção de veículos.
O avanço dos focos preocupa especialmente pela importância econômica da região. Santa Catarina responde por mais de 20% das exportações brasileiras de carne de frango e abriga uma cadeia produtiva que movimenta milhares de propriedades rurais, unidades industriais, transportadoras e fornecedores de milho e farelo de soja.
O impacto comercial já ultrapassa Santa Catarina. México e Malásia suspenderam importações de determinados produtos avícolas de todo o Brasil. China, Arábia Saudita e Chile adotaram restrições direcionadas à produção catarinense. A diferença é importante: enquanto os bloqueios nacionais atingem exportadores de todos os estados, as suspensões regionais preservam parte do acesso brasileiro aos mercados internacionais.
No caso da China, a negociação sanitária permitiu limitar o embargo a Santa Catarina, evitando uma suspensão de alcance nacional. Ainda assim, a medida representa uma dificuldade importante para os frigoríficos catarinenses, especialmente porque a China é um mercado relevante para produtos como pés e miúdos de frango, que nem sempre encontram compradores alternativos com a mesma remuneração.
O México também merece atenção. Entre janeiro e setembro de 2026, o país recebeu aproximadamente 171 mil toneladas de carne de frango brasileira, volume equivalente a cerca de 4% das exportações nacionais. A Malásia representa participação inferior a 0,5%. Embora o peso desses mercados seja diferente, as restrições podem obrigar exportadores a redirecionar mercadorias e renegociar contratos.
Uma das principais preocupações é o tempo necessário para recuperar os mercados. A eliminação dos focos e a conclusão dos procedimentos sanitários não significam reabertura automática das importações. Cada país estabelece suas exigências e precisa reconhecer oficialmente as garantias apresentadas pelo Brasil.
A experiência recente do Rio Grande do Sul demonstra esse risco. Após ocorrências sanitárias registradas em 2024 e 2025, o estado permaneceu aproximadamente 18 meses sem acesso ao mercado chinês, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA. O histórico não significa que Santa Catarina enfrentará o mesmo prazo, mas mostra que os efeitos comerciais podem se prolongar mesmo depois do encerramento da emergência sanitária.
Se as restrições persistirem, frigoríficos e cooperativas terão de buscar novos compradores, ampliar a armazenagem de produtos congelados ou direcionar parte da produção ao mercado interno. Esse movimento pode aumentar a oferta doméstica e pressionar os preços da carne de frango, especialmente em um período de maior disponibilidade de animais para abate.
O reflexo também chega às propriedades rurais. Eventuais ajustes no alojamento de pintinhos, na programação de abates e nos contratos de integração podem afetar a renda dos avicultores. A redução do ritmo de produção ainda tende a diminuir a demanda regional por milho e farelo de soja, principais componentes da alimentação das aves.
Para os produtores de grãos, o impacto dependerá da duração das restrições e da capacidade das indústrias de manter suas operações. Uma desaceleração localizada da avicultura pode reduzir o consumo de ração em determinadas regiões, embora não represente necessariamente queda proporcional na demanda nacional por milho e soja.
A preocupação já mobiliza outros estados produtores. No Paraná, maior produtor nacional de carne de frango, a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) intensificou a vigilância e a fiscalização do transporte de aves vivas nas divisas estaduais. Até a atualização divulgada na terça-feira (27), os programas de monitoramento não haviam identificado a doença de Newcastle nem influenza aviária de alta patogenicidade no estado.
A doença de Newcastle é causada por um vírus que afeta aves domésticas e silvestres, podendo provocar problemas respiratórios, alterações neurológicas e elevada mortalidade. A identificação do agente em animais sem sintomas reforça a importância da vigilância laboratorial e das medidas preventivas nas propriedades.
O Mapa esclarece que o consumo de carne de frango, peru e ovos provenientes de estabelecimentos submetidos à inspeção oficial permanece seguro. As restrições sanitárias têm como objetivo impedir a disseminação do vírus entre as aves e atender às exigências dos países compradores, não havendo contraindicação ao consumo desses produtos inspecionados.
Para a avicultura brasileira, o desafio imediato é impedir que os três focos identificados no Oeste catarinense se transformem em uma crise sanitária mais ampla. Quanto mais rapidamente a ocorrência for controlada e as garantias reconhecidas pelos importadores, menores serão os prejuízos para frigoríficos, cooperativas, produtores integrados e fornecedores de grãos.
O episódio evidencia que uma ocorrência localizada em poucas propriedades pode atingir uma cadeia produtiva nacional, especialmente em um setor que depende do reconhecimento sanitário para manter sua presença no comércio internacional.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Dólar dispara após eleições, favorece exportações e encarece produção no campo
A disparada do dólar após o segundo turno das eleições alterou, em poucas horas, as condições de comercialização e os custos de produção do agronegócio brasileiro. A moeda norte-americana saltou de aproximadamente R$ 4,99 na sexta-feira (23.10) para R$ 5,40 na segunda-feira (26), uma valorização de 8,21% em um único pregão. O movimento favorece produtores e empresas que exportam café, soja, milho, carnes, açúcar e algodão, mas também ameaça encarecer fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos importados, justamente quando parte do País está em pleno plantio da safra 2026/27.
A reação do mercado financeiro ao resultado eleitoral foi imediata. Durante as negociações de segunda-feira, o dólar chegou a R$ 5,60, antes de perder parte da força e encerrar o dia em R$ 5,403. Foi a maior alta percentual diária da moeda desde janeiro de 1999. Na terça-feira (27), houve uma correção de 0,97%, com fechamento próximo de R$ 5,35. Mesmo depois desse recuo, a cotação permanecia cerca de 7% acima do nível registrado antes da votação.
A oscilação reflete o reposicionamento dos investidores diante das expectativas para a política econômica, especialmente em relação às contas públicas, à inflação e aos juros. A Bolsa brasileira também sentiu o impacto, com queda de 13,88% na segunda-feira. O movimento cambial, entretanto, não depende apenas do cenário nacional: as decisões sobre juros nos Estados Unidos e o comportamento dos mercados internacionais também influenciam a entrada e a saída de dólares do Brasil.
Para os próximos dias, a expectativa é de continuidade da volatilidade. Investidores aguardam sinais sobre a condução da política fiscal e acompanham a decisão do Federal Reserve, o banco central norte-americano, sobre os juros. Entre os cenários considerados por instituições financeiras está a possibilidade de o dólar voltar à faixa de R$ 5,50 caso persistam as incertezas. Projeções mais pessimistas admitem valores próximos de R$ 6, mas não representam uma trajetória definida para a moeda.
No campo, a primeira consequência aparece na conversão das receitas de exportação. Uma venda de US$ 100 mil, por exemplo, representava aproximadamente R$ 499 mil com o dólar a R$ 4,99. Na cotação de R$ 5,40, a mesma operação passa a equivaler a R$ 540 mil, diferença de R$ 41 mil, sem qualquer alteração no preço internacional da mercadoria. Esse ganho cambial, porém, não significa necessariamente aumento equivalente no lucro, porque despesas e contratos também podem estar vinculados à moeda estrangeira.
O café é um dos exemplos mais imediatos. Segundo análise divulgada nesta quarta-feira (28.10) pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), a valorização do dólar tem sustentado os preços do arábica e do robusta no mercado brasileiro, apesar das perdas nas bolsas internacionais.
Na terça-feira, o indicador do café arábica encerrou em R$ 1.610,19 por saca de 60 quilos, enquanto o robusta alcançou R$ 967,97. Na comparação com a sexta-feira anterior às eleições, o arábica acumulou pequena valorização, de aproximadamente 0,5%, enquanto o robusta subiu cerca de 3,3%. Os resultados mostram que o câmbio ajudou a compensar a pressão negativa do mercado externo, mas não transferiu integralmente sua valorização aos preços recebidos pelos produtores.
O comportamento internacional do café continua condicionado às condições climáticas nas regiões produtoras e à perspectiva de recuperação dos estoques na Bolsa de Nova York. No Brasil, a safra 2027/28 está na fase de pegamento e desenvolvimento dos chumbinhos. Como o próximo ciclo será de bienalidade baixa para o arábica, eventuais problemas climáticos podem ampliar as oscilações dos preços.
Na soja, a reação foi mais evidente. O indicador Cepea/Esalq no Paraná passou de R$ 146,69 por saca na sexta-feira para R$ 149,18 na segunda-feira e R$ 151,38 na terça-feira, uma valorização acumulada de aproximadamente 3,2% em dois pregões. Em Paranaguá, a cotação chegou a R$ 157,41 por saca. A alta favorece principalmente quem ainda possui produto disponível para comercialização e não comprometeu antecipadamente toda a produção.
A valorização da moeda norte-americana também melhora a receita em reais das exportações de milho, algodão, açúcar, etanol e carnes. Para frigoríficos, usinas e tradings, o efeito depende dos contratos firmados e da parcela das vendas destinada ao mercado externo. No caso do produtor de boi gordo, o benefício não é automático, porque o preço da arroba continua condicionado à oferta de animais, às escalas de abate e à demanda interna.
A cadeia de aves e suínos enfrenta uma situação semelhante. O dólar mais alto favorece as receitas das exportações de carne de frango e suína, mas também pode pressionar os custos de alimentação dos animais, especialmente quando soja e milho se valorizam no mercado doméstico. Assim, um movimento positivo para a indústria exportadora nem sempre se traduz em ganho proporcional para todos os produtores integrados.
O principal risco está na compra dos insumos agrícolas. O Brasil depende fortemente do mercado internacional para o abastecimento de fertilizantes, e a alta cambial tende a elevar o preço em reais de produtos como cloreto de potássio, fosfatados e nitrogenados. Defensivos, componentes de máquinas e equipamentos importados também ficam mais caros quando os fornecedores repassam a variação da moeda.
Para dimensionar esse efeito, uma compra de fertilizantes de US$ 50 mil custaria R$ 249,5 mil com o dólar a R$ 4,99. Na cotação de R$ 5,40, o desembolso subiria para R$ 270 mil, diferença de R$ 20,5 mil. Trata-se de uma simulação cambial, sem considerar alterações nos preços internacionais, fretes ou impostos, mas que demonstra a pressão sobre o orçamento da propriedade.
O momento exige atenção especial dos produtores de soja e milho que estão plantando a safra 2026/27 e daqueles que já negociam insumos para o ciclo seguinte. Quem comprou antecipadamente parte dos fertilizantes e defensivos fica menos exposto à oscilação imediata. Já quem ainda precisa fechar contratos enfrenta maior incerteza sobre o custo final da lavoura.
O trigo e outros produtos voltados principalmente ao abastecimento interno também podem sentir efeitos indiretos. Um dólar valorizado tende a encarecer mercadorias importadas, mas pode melhorar a competitividade da produção nacional diante dos concorrentes estrangeiros. Por outro lado, a alta de combustíveis, peças e insumos pressiona os custos de produção e transporte, independentemente de o agricultor exportar ou não.
Há ainda reflexos sobre o crédito rural. Uma desvalorização persistente do real pode aumentar as expectativas de inflação e dificultar a redução dos juros, encarecendo o financiamento da produção e os investimentos em máquinas, armazenagem e infraestrutura. Produtores com dívidas ou compromissos diretamente vinculados ao dólar enfrentam uma pressão adicional, pois o valor dessas obrigações aumenta quando convertido para reais.
A intensidade dos efeitos dependerá da duração da alta cambial. Se o dólar recuar nos próximos pregões, parte da pressão sobre os custos poderá diminuir antes de chegar aos preços finais dos insumos. Se permanecer elevado, a tendência é de maior impacto sobre o planejamento das próximas safras, especialmente nas propriedades que ainda não concluíram suas compras.
Para o agronegócio brasileiro, portanto, a valorização do dólar representa uma oportunidade comercial acompanhada de riscos financeiros. O mesmo câmbio que aumenta a receita das exportações pode consumir parte desse ganho no custo de produzir. A diferença estará no momento da comercialização, nos contratos já assumidos e na capacidade de cada produtor de preservar sua margem diante das novas condições do mercado.
Fonte: Pensar Agro
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