Agricultura
Mercado começa 2026 pressionado por importações e baixa fluidez interna
Agricultura
O mercado brasileiro de trigo iniciou 2026 em ritmo lento, com negociações pontuais e pouca disposição para fechamento de negócios tanto do lado da demanda quanto da oferta. A combinação de estoques confortáveis na indústria, defesa de preços por parte dos produtores e ampla disponibilidade do cereal no mercado internacional manteve o setor em compasso de espera ao longo de janeiro, especialmente nos principais polos produtores do Sul do País.
No mercado interno, a formação de preços segue limitada pela paridade de importação. Mesmo com uma safra nacional menor em relação a ciclos anteriores, a dependência estrutural do Brasil em relação ao trigo externo continua definindo um teto para as cotações domésticas. No Paraná, principal estado produtor, os negócios no interior giraram em torno de R$ 1,20 mil por tonelada, enquanto no Rio Grande do Sul os valores oscilaram entre R$ 1,05 mil e R$ 1,10 mil por tonelada, com baixa liquidez.
A perda de competitividade das exportações contribuiu para esse cenário. Com preços portuários pouco atrativos, o escoamento do excedente interno ficou restrito, direcionando maior volume para o mercado doméstico justamente em um momento de menor apetite comprador. O resultado foi um ambiente de acomodação, com negociações concentradas em oportunidades pontuais e sem pressão imediata para recomposição de estoques.
O quadro brasileiro precisa ser lido à luz do contexto global. A produção mundial de trigo na safra 2024/25 é estimada em cerca de 797 milhões de toneladas, com ampla oferta concentrada em grandes produtores como China, União Europeia, Índia, Rússia e Estados Unidos. Nesse cenário, o Brasil ocupa posição periférica: a produção nacional ficou em torno de 7,7 milhões de toneladas, volume insuficiente para atender ao consumo interno, o que mantém o País entre os maiores importadores do cereal no mundo.
Essa assimetria estrutural explica por que o mercado doméstico responde mais aos preços internacionais do que à dinâmica local de oferta e demanda. Mesmo em anos de quebra de safra, a abundância global impede movimentos mais consistentes de alta no Brasil.
A Argentina segue como principal fornecedora externa, mas a safra recorde do país vizinho trouxe um novo fator de atenção: problemas de qualidade. O excesso de chuvas em regiões produtoras reduziu o teor de proteína de parte dos lotes, elevando prêmios para trigos com melhor padrão industrial e levando compradores brasileiros a buscar origens alternativas para compor seus blends.
Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, os volumes programados de importação somam cerca de 2,78 milhões de toneladas, levemente abaixo do registrado no mesmo intervalo da safra anterior. Os desembarques se concentram em estados com forte parque moageiro e consumo elevado, como São Paulo, Ceará, Pernambuco e Bahia, reforçando a lógica logística e industrial do setor.
O início de 2026, portanto, é marcado por um mercado em transição. No primeiro semestre, ainda predominam os efeitos da safra 2025/26, com pouca volatilidade e baixa urgência de compra. Já o segundo semestre tende a incorporar riscos climáticos, custos de produção e expectativas para a safra 2026/27, tanto no Brasil quanto no exterior.
Até lá, a tendência é de manutenção de um ambiente defensivo, com compradores cautelosos, vendedores firmes e preços ancorados no mercado internacional — um retrato fiel da posição do trigo brasileiro na engrenagem global de grãos.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
UE descarta mudar regras e carne brasileira pode perder mercado em setembro
A União Europeia não pretende reduzir suas exigências sobre o uso de antimicrobianos para manter a entrada de produtos brasileiros. Sem um acordo técnico, carnes e outros alimentos de origem animal produzidos no Brasil deixarão de ser aceitos no bloco a partir de 3 de setembro.
A posição foi reforçada pelo embaixador da Irlanda no Brasil, Martin Gallagher. O país ocupa até dezembro a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, responsável por coordenar os trabalhos dos governos do bloco.
A restrição não decorre da descoberta de contaminação em carregamentos brasileiros. O problema está na comprovação de que o sistema de produção nacional atende às regras europeias, especialmente a proibição de antimicrobianos usados para acelerar o crescimento dos animais e de medicamentos reservados ao tratamento de infecções humanas.
Em junho, a Comissão Europeia retirou o Brasil da relação de países considerados aptos a cumprir essas normas. A mudança alcança carne bovina, de frango e de cavalo, além de pescado, mel, tripas e outros produtos antes habilitados.
As exigências já estavam previstas na legislação europeia e passam a ser aplicadas integralmente em setembro. Segundo o embaixador, o Brasil conhecia as condições e vinha discutindo sua implementação com autoridades do bloco havia anos.
Para retornar à lista, o governo brasileiro terá de demonstrar que possui controles capazes de acompanhar o uso dos medicamentos ao longo da cadeia produtiva. Não basta uma empresa ou fazenda declarar que atende às regras: a União Europeia exige garantias oficiais, fiscalização e certificação.
Essa necessidade ajuda a explicar a dificuldade de uma solução rápida. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que a adaptação completa da pecuária bovina poderá levar cerca de 30 meses, considerando o ciclo de produção dos animais.
Argentina, Paraguai e Uruguai permaneceram habilitados, o que enfraquece o argumento de que a decisão tenha sido uma barreira dirigida ao Mercosul. Para o bloco europeu, a retirada do Brasil foi resultado da análise técnica da documentação apresentada.
A suspensão não fecha todos os mercados para a carne brasileira nem afeta a comercialização no país. Seu efeito ficará concentrado nas empresas e propriedades que abastecem a União Europeia, destino menor em volume do que a China, mas relevante pela compra de cortes de maior valor e pela diversificação das exportações.
O impasse ocorre justamente nos primeiros meses de aplicação provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Assinado em janeiro, o tratado começou a produzir efeitos em 1º de maio e prevê a redução gradual de tarifas em mais de 90% do comércio entre os blocos. A aplicação provisória está confirmada pela Comissão Europeia.
O acordo, contudo, não elimina exigências sanitárias. A redução de tarifas pode facilitar o comércio, mas cada produto continuará obrigado a cumprir os padrões do mercado importador. Na prática, a carne brasileira poderá ter condições tarifárias melhores e, ao mesmo tempo, permanecer impedida de entrar no bloco por falta de habilitação sanitária.
Brasil e Comissão Europeia ainda negociam uma solução. Gallagher afirmou que o bloco está aberto ao diálogo, mas não trabalha com a possibilidade de flexibilizar suas normas. Também não há indicação de que o país conseguirá recuperar a autorização antes de 3 de setembro.
Até lá, frigoríficos habilitados precisam acompanhar o destino das cargas e as orientações do governo. Caso o Brasil não seja reincluído na lista, produtos que chegarem ao mercado europeu depois da entrada em vigor da regra poderão não ser aceitos, mesmo que tenham sido embarcados anteriormente.
Fonte: Pensar Agro
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