Opinião
BALA PERDIDA?
Opinião
Por: AUREMÁCIO CARVALHO
Esperado com muito amor, prestes a nascer, o pequeno Arthur veio ao mundo de forma inesperada: mutilado por uma bala perdida, no dia 30/06, no Rio de Janeiro e com possibilidade de ficar com graves sequelas, pois a bala entrou no lado esquerdo do peito do bebê, perfurou costelas, os pulmões e lesionou duas vértebras.
Outras “balas perdidas”: Vanessa dos Santos-04/07/17-10 anos. Local da morte: Lins de Vasconcelos A estudante foi morta em casa com um tiro na cabeça, durante um confronto entre traficantes e policiais na comunidade Camarista Méier, no complexo de favelas do Lins de Vasconcelos; Marlene M. Conceição-76 anos, 30/06/17 e Ana C. Conceição, 42 anos,30/06/17. Local da morte: Mangueira. Mãe e filha – foram baleadas e mortas durante um tiroteio no Morro da Mangueira, na Zona Norte.
Familiares acusam PM´s pelos disparos, e afirmam que houve omissão de socorro. A expressão bala perdida faz referência a uma ocorrência típica das grandes cidades na qual uma pessoa é atingida por bala perdida, entre tiroteios de policiais e marginais.
É referenciada ainda como causa mortis desses eventos (“autor desconhecido”). Dados apontam que o Estado do Rio de Janeiro tem em média mais de um caso por dia. Recentemente, o TJ/RJ condenou o Estado ao pagamento de indenização por dano moral no valor de R$ 200 mil para a esposa de vítima de bala perdida em junho de 2015.
O Estado também foi condenado ao pagamento de pensão vitalícia para a mulher. Para os desembargadores da 7ª câmara Cível, há “responsabilidade civil do Estado quando há troca de tiros entre policiais militares e marginais em locais públicos ou com grande concentração de pessoas, colocando em risco a incolumidade física da população”. A minha tese: a bala perdida tem endereço certo: o estado democrático de direito.
O Brasil fracassou e fracassa diariamente na área de segurança pública; marginais e o crime organizado avançam sobre o território das metrópoles e até de médias e pequenas cidades: arrastões, assaltos a bancos pelo novo cangaço; sequestros; estupros coletivos; dentre outros horrores, que assistimos dia a dia. Impotente para poder reagir, o cidadão comum se tranca em muros, grades; renuncia ao lazer, evita sair de casa à noite.
Uma conclusão dos autores que estudam o assunto, é que um dos insumos da violência no Brasil é a ausência de democracia real. Afinal, o sistema democrático no Brasil é uma conquista recente. Talvez por conta disso tenhamos mais problemas com os órgãos de segurança do que países onde esse sistema existe há mais tempo e onde a participação democrática vai além do direito ao voto. Só este ano, 632 pessoas foram atingidas, no Brasil por balas perdidas.
Dessas, pelo menos 67 morreram e, infelizmente também, 91 policiais morreram, este ano, no Rio, no cumprimento do dever. Ou, como ilustra um diálogo gravado entre dois marginais, um deles questionando se podia trazer a encomenda (drogas) em segurança até o morro, onde funciona uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora): “É isso aí, mano, pode trazer o bagulho. Quem manda aqui é “nóis”, irmão”.
A violência urbana tem ocasionado a morte de milhares de jovens no Brasil, é o principal fator de mortandade dessa faixa etária .A criminalidade não é um “privilégio” exclusivo dos grandes centros urbanos do país, entretanto o seu crescimento é largamente maior do que em cidades menores. É nas grandes cidades brasileiras que se concentram os principais problemas sociais, como desemprego, desprovimento de serviços públicos assistenciais (postos de saúde, hospitais, escolas etc.), além da ineficiência da segurança pública.
Tais problemas são determinantes para o estabelecimento e proliferação da marginalidade e, consequentemente, da criminalidade que vem acompanhada pela violência. Os bairros marginalizados das principais cidades brasileiras respondem por aproximadamente 35% da população nacional; nesses locais pelo menos a metade das mortes são provocadas por causas violentas, como agressões e homicídios.
Essa situação retrata a ineficiência do Estado, que não tem disponibilizado um serviço de segurança pública eficaz à sua população. Enquanto o poder do Estado não se impõe, o crime organizado se institui como um poder paralelo, que estabelece regras de ética e conduta própria, além de implantar fronteiras para a atuação de determinada facção criminosa.
A violência, em seus mais variados contornos, é um fenômeno histórico na constituição da sociedade brasileira. A escravidão (primeiro com os índios e depois, e especialmente, com a mão de obra africana), a colonização mercantilista, o coronelismo, as oligarquias antes e depois da independência, somados a um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, contribuíram enormemente para o aumento da violência que atravessa a história do Brasil. Sem falara na sensação de impunidade: de cada 10 inquéritos policiais, apenas 01 é concluído.
Entre 2011 e 2015, os tiroteios entre policiais e marginais ocorridos nas favelas “pacificadas” do Rio, pularam de 13 para 1550. Em um Estado democrático, a repressão controlada e a polícia têm um papel crucial no controle da criminalidade.
Porém, essa repressão controlada deve ser simultaneamente apoiada e vigiada pela sociedade civil. Não é o que acontece, infelizmente, no Brasil, onde a violência e a corrupção policial é uma realidade em grande parte do país e a população tem medo do contato com a polícia, dadas as abordagens, muitas vezes, violentas e desrespeitosas, sem qualquer justificativa legal ou de procedimento padrão policial.
Por fim, a solução para a questão da violência no Brasil envolve os mais diversos setores da sociedade, não só a segurança pública e um judiciário eficiente, mas também demanda com urgência, profundidade e extensão a melhoria do sistema educacional, saúde, habitacional, oportunidades de emprego, dentre outros fatores.
Requer principalmente uma forte mudança nas políticas públicas e uma participação maior da sociedade civil nas discussões e soluções desse problema de abrangência nacional. Não vemos outro caminho para a pacificação social do Brasil.
“Bala perdida é expressão definitivamente inadequada. A bala pode ter vindo não se sabe de onde. Pode não ter sido disparada para alcançar quem alcançou. Mas perdida não está não. Perguntem à pessoa atingida.” (Millôr Fernandes). Ou, com expressou a mãe de uma menina morta por bala perdida: “Será que minha filha nasceu para viver somente 12 anos?”.
Auremácio Carvalho é Advogado e Sociólogo.
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
-
Política7 dias atrásGilberto Mello ganha força na reta final e é aposta do PL para a Câmara Federal
-
Polícia5 dias atrásMárcia Pinheiro passa por cirurgia de seis horas e família atualiza estado de saúde
-
Política4 dias atrásTRE-MT informa ausência de denúncias de fake news e destaca ações conjuntas com a ALMT
-
Política7 dias atrásLuiz Sansão declara apoio a Juca do Guaraná e destaca atuação do deputado em Barra do Bugres
-
Entretenimento6 dias atrásClara, filha de Zezé Di Camargo e Graciele surpreende ao escolher doces: ‘Sem açúcar’
-
Esporte6 dias atrásBrasil vira sobre a Austrália e vence por 4 a 2 em amistoso
-
Política6 dias atrásEmanuelzinho aparece na frente em pesquisa para deputado federal em Cuiabá
-
Política6 dias atrásAbilio pede desculpas a Erika Hilton após acordo com a PGR por episódio na CPMI


Você precisa estar logado para postar um comentário Login