Agricultura
Inadimplência no crédito rural cai 10,3% em setembro, maior recuo em 15 anos
Agricultura
A inadimplência do crédito rural registrou em setembro a maior queda mensal desde o início da série histórica do Banco Central (BC), em 2011. A proporção de financiamentos com atraso superior a 90 dias recuou de 9,7% em agosto para 8,7% em setembro, interrompendo dois meses consecutivos de forte deterioração. Apesar da melhora, os números mostram que o produtor continua enfrentando dificuldades para financiar a atividade: o volume de novos empréstimos diminuiu, o saldo das operações recuou e os juros permanecem elevados.
A redução de um ponto percentual na inadimplência ocorreu depois de aumentos de 1,3 ponto percentual em julho e 0,9 ponto em agosto. O movimento chama atenção porque mudanças dessa magnitude não são comuns no crédito rural, modalidade em que os pagamentos estão associados aos ciclos de produção e comercialização das safras.
Segundo o Banco Central, a renegociação de dívidas pode ter contribuído para a melhora. O avanço da inadimplência nos meses anteriores levou produtores e instituições financeiras a buscar alternativas para regularizar contratos, em um momento de maior pressão sobre a capacidade de pagamento das propriedades.
A hipótese, entretanto, exige cautela. A renegociação permite reorganizar vencimentos e retirar operações da condição de atraso, mas não significa necessariamente que o produtor tenha recuperado sua capacidade financeira. Em muitos casos, o endividamento permanece, com novas datas de pagamento e compromissos que dependerão do resultado das próximas safras.
O principal sinal de alerta está no comportamento das novas concessões. Em setembro, os financiamentos rurais com recursos direcionados para pessoas físicas somaram R$ 20,178 bilhões, redução de 2,3% em relação a agosto. Na comparação com setembro de 2025, a queda chegou a 12,8%, indicando menor contratação de crédito em um período importante para o financiamento da produção.
O saldo total dessas operações atingiu R$ 548,5 bilhões, recuo de 2,3% no mês e crescimento de apenas 0,7% em 12 meses. Os números indicam que o estoque de crédito rural praticamente não avançou no último ano, apesar da necessidade de recursos para custeio, investimento e manutenção das atividades agropecuárias.
Para o produtor, a combinação de crédito mais restrito e endividamento elevado representa um obstáculo ao planejamento. A compra de fertilizantes, sementes, defensivos e combustível exige desembolsos antes da colheita. Quando o financiamento não acompanha essa necessidade, parte dos agricultores precisa recorrer a recursos próprios, negociar prazos com fornecedores ou adiar investimentos.
Os juros também continuam pressionando os custos. A taxa média do crédito rural direcionado a pessoas físicas caiu de 11% ao ano em agosto para 10,8% em setembro. Embora represente uma redução de 1,1 ponto percentual em 12 meses, o patamar ainda pesa sobre atividades cuja rentabilidade depende das condições climáticas, da produtividade e das oscilações dos preços agrícolas.
A diferença entre as modalidades de financiamento revela outra preocupação. Nas operações com taxas reguladas, a inadimplência caiu de 3,8% para 3,7%. Já nos empréstimos contratados a taxas de mercado, o índice recuou de 17,6% para 15,8%.
Mesmo após a melhora, a inadimplência no crédito rural a taxas de mercado permanece mais de quatro vezes superior à registrada nas operações reguladas. A diferença evidencia a maior dificuldade enfrentada pelos produtores que dependem de financiamentos sujeitos às condições comerciais dos bancos, geralmente mais onerosos.
O quadro ocorre em um momento de expansão da produção agrícola. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita nacional de aproximadamente 367 milhões de toneladas de grãos na safra 2026/27. O potencial de crescimento, entretanto, contrasta com a situação financeira de parte das propriedades, pressionadas por custos elevados, dívidas acumuladas e incertezas climáticas.
A possibilidade de um El Niño intenso amplia essa preocupação. Perdas de produtividade provocadas por estiagens ou excesso de chuvas podem comprometer a receita necessária para cumprir os financiamentos, especialmente entre produtores que já renegociaram dívidas anteriores. Por isso, a recuperação do crédito rural depende também de instrumentos de proteção, como o seguro agrícola, e de condições de comercialização que permitam recompor as margens da atividade.
A queda da inadimplência em setembro representa um sinal positivo, mas ainda insuficiente para caracterizar uma recuperação consistente das finanças rurais. Será necessário acompanhar os próximos levantamentos do Banco Central para verificar se a redução dos atrasos se mantém e, principalmente, se volta a ocorrer crescimento nas concessões de crédito.
O desafio é evitar que a melhora estatística esconda uma dificuldade estrutural. O Brasil continua ampliando sua capacidade de produção, mas parte dos agricultores enfrenta restrições para financiar o próximo ciclo. Sem crédito acessível e condições sustentáveis de pagamento, os recordes de colheita não se traduzem necessariamente em maior segurança financeira para quem produz.
Agricultura
Doenças ampliam alerta sanitário e ameaçam produção e exportações
A avicultura brasileira enfrenta um novo período de atenção sanitária. Enquanto Santa Catarina trabalha para conter os focos da doença de Newcastle, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mantém seis investigações de ocorrências respiratórias e neurológicas em aves, cinco delas no estado catarinense. O avanço da vigilância ocorre em uma das principais regiões produtoras de carne de frango do País e reforça a preocupação com possíveis prejuízos à produção, aos contratos de exportação e à renda dos avicultores.
O painel de Investigações de Síndrome Respiratória e Nervosa das Aves (SRN), atualizado nesta quinta-feira (29.10), registra quatro ocorrências em criações domésticas de galinhas no Oeste de Santa Catarina. Uma está localizada em Quilombo, outra em Coronel Freitas e duas em Nova Itaberaba. Os municípios ficam próximos das áreas onde foram identificados os focos de Newcastle a partir de 18 de outubro.
Há ainda uma investigação envolvendo pombos silvestres em Itajaí, no litoral catarinense, e outra em uma criação doméstica de galinhas em São José do Belmonte, Pernambuco. Em todos os seis casos, as amostras coletadas aguardavam resultados laboratoriais conclusivos na atualização de quinta-feira.
É importante distinguir investigação de confirmação. A SRN não é uma doença específica, mas uma classificação utilizada pelo serviço veterinário oficial para identificar aves com sinais que exigem apuração. Entre as enfermidades investigadas estão a influenza aviária de alta patogenicidade e a doença de Newcastle. Portanto, os seis registros não representam seis novos focos confirmados.
A concentração das investigações no Oeste catarinense exige atenção especial pela importância econômica da região. A produção avícola local reúne propriedades integradas, cooperativas, frigoríficos e fornecedores de insumos. Uma eventual ampliação das restrições sanitárias poderia afetar o alojamento de aves, o funcionamento das indústrias e o transporte de animais e produtos.
O risco comercial também merece acompanhamento. Restrições impostas por países importadores em resposta à doença de Newcastle podem alcançar municípios, estados ou todo o território brasileiro, dependendo dos acordos sanitários estabelecidos com cada mercado. Mesmo quando os bloqueios ficam restritos a determinada região, frigoríficos precisam reorganizar embarques, contratos e destinos comerciais.
Além da vigilância sobre Newcastle e influenza aviária, outra enfermidade preocupa a avicultura nacional: a bronquite infecciosa aviária. Embora provoque sintomas respiratórios que podem se confundir com os de outras doenças, ela é causada por um vírus diferente e exige diagnóstico laboratorial específico. Não há, nas informações divulgadas sobre as seis investigações, confirmação de que alguma delas esteja relacionada à bronquite infecciosa.
Causada por um coronavírus que infecta galinhas, a bronquite infecciosa se espalha rapidamente entre as aves e compromete tanto a produção de carne quanto a de ovos. A transmissão ocorre pelo contato com animais infectados e por materiais contaminados, como equipamentos, roupas e utensílios utilizados nas granjas.
O problema vai além dos sintomas respiratórios. Dependendo da variante do vírus, a infecção também pode atingir os rins e o sistema reprodutivo das aves. Em frangos de corte, a redução do consumo de ração e do ganho de peso prejudica o desempenho dos lotes. Nas poedeiras, a doença pode provocar queda acentuada na produção e alterações na qualidade dos ovos.
Referências técnicas do setor apontam que, em situações graves, a redução na postura pode chegar a 70%. A recuperação dos indicadores produtivos pode levar várias semanas, especialmente quando há comprometimento do aparelho reprodutivo. Esses percentuais representam situações específicas e não devem ser interpretados como perdas esperadas em todas as granjas atingidas.
Para o produtor, os prejuízos incluem despesas com atendimento veterinário, maior necessidade de manejo, pior conversão alimentar e redução da quantidade de animais ou ovos comercializados. A presença de infecções secundárias também pode agravar o quadro e elevar a mortalidade.
A bronquite infecciosa, entretanto, tem consequências sanitárias e comerciais diferentes das doenças que motivam as investigações oficiais de SRN. Newcastle e influenza aviária de alta patogenicidade estão sujeitas a medidas específicas de controle e podem provocar restrições internacionais imediatas. A bronquite infecciosa exige atenção permanente das granjas, mas sua ocorrência não implica automaticamente os mesmos embargos comerciais.
Essa distinção é importante para evitar que sintomas semelhantes sejam tratados como confirmação de uma enfermidade. A identificação do agente causador depende de exames laboratoriais, e a resposta sanitária deve considerar a doença efetivamente diagnosticada.
O controle da bronquite infecciosa envolve vacinação, acompanhamento veterinário e medidas de biosseguridade. Os programas de imunização precisam considerar as características das aves, as variantes virais presentes na região e as condições de produção. A vacinação, isoladamente, não substitui o controle de acesso às instalações, a higienização de equipamentos e o monitoramento dos lotes.
No caso das investigações conduzidas pelo Mapa, a prioridade é identificar rapidamente a causa das alterações respiratórias e neurológicas observadas. A comunicação de suspeitas ao serviço veterinário oficial permite antecipar medidas de contenção quando necessárias e reduzir o risco de disseminação de enfermidades de maior impacto sanitário.
O momento exige atenção também dos fornecedores de milho e farelo de soja. A avicultura é uma das principais consumidoras desses produtos no mercado interno, e eventuais interrupções prolongadas na atividade industrial ou na criação de aves podem repercutir sobre a demanda regional por rações.
Para o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de carne de frango, preservar a condição sanitária dos plantéis é essencial para manter o acesso aos mercados internacionais. A competitividade do setor depende não apenas de produtividade e custos, mas também da capacidade de detectar, controlar e comunicar ocorrências sanitárias com rapidez.
As seis investigações em andamento ainda dependem de laudos conclusivos. Até que os resultados sejam divulgados, não é possível afirmar que representam novos focos de Newcastle, influenza aviária ou bronquite infecciosa. O que os registros demonstram é a necessidade de manter a vigilância em uma cadeia produtiva na qual um problema sanitário localizado pode produzir consequências econômicas muito além da propriedade afetada.
Fonte: Pensar Agro
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