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Farelo de soja dispara 44% e milho ganha força nos portos brasileiros

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As exportações brasileiras de farelo de soja devem crescer 44,2% em outubro, enquanto os embarques de milho avançam 7,1%, reforçando a demanda internacional por produtos do agronegócio brasileiro. A movimentação dos dois produtos deve alcançar 8,59 milhões de toneladas no mês, segundo projeções da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). O desempenho contrasta com a soja em grão, cujas vendas externas apresentam redução de 3,8% em relação a outubro do ano passado.

O farelo de soja lidera o crescimento. A previsão é de 2,49 milhões de toneladas exportadas, ante 1,73 milhão em outubro de 2025. O aumento de aproximadamente 763 mil toneladas ocorre em um momento de valorização do produto no mercado internacional, ampliando a receita das indústrias brasileiras de processamento de soja.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, nos primeiros 16 dias úteis de outubro, o volume médio diário de farelo embarcado superou em 5,5% o registrado no mesmo mês do ano passado. O preço médio apresentou valorização de 24,8%, enquanto a receita diária cresceu 31,7%.

A diferença entre o crescimento dos embarques e o avanço do faturamento indica que os preços internacionais estão contribuindo de maneira importante para o resultado. Para as indústrias de esmagamento, a valorização do farelo favorece a comercialização de um dos principais produtos obtidos no processamento da soja, ao lado do óleo vegetal.

O desempenho também tem reflexos sobre o mercado interno. O farelo é uma das principais matérias-primas utilizadas na fabricação de rações para aves, suínos e outros animais. Uma demanda externa mais aquecida pode aumentar a disputa pelo produto, influenciando os custos da alimentação animal, embora os preços domésticos também dependam da oferta nacional e das condições de comercialização.

O crescimento das exportações de farelo não significa, necessariamente, aumento proporcional da demanda por soja em grão. Parte da produção brasileira é processada no próprio País, agregando valor antes da exportação. Esse movimento amplia a participação da indústria nacional no comércio internacional, mas também exige capacidade de esmagamento, logística e competitividade para atender aos compradores.

A programação da Anec aponta que o Brasil poderá acumular 21,80 milhões de toneladas de farelo exportadas entre janeiro e outubro. Somente na última semana do mês, de 25 a 31, estão previstos embarques de 621,1 mil toneladas. Santos concentra a maior movimentação, com 341,1 mil toneladas, seguido por Rio Grande, com 126,7 mil, e Paranaguá, com 124,9 mil.

No milho, a previsão é de 6,10 milhões de toneladas exportadas em outubro, crescimento de aproximadamente 406 mil toneladas sobre o mesmo período de 2025. O volume também supera as 5,31 milhões de toneladas registradas em setembro, indicando aceleração dos embarques brasileiros.

A recuperação das vendas externas ocorre em um período de maior disponibilidade do cereal após a colheita da segunda safra. Para o produtor, o avanço das exportações representa um importante canal de escoamento da produção, especialmente em regiões onde a oferta supera a capacidade de consumo local.

A demanda internacional também ajuda a equilibrar o mercado diante do crescimento do consumo doméstico de milho pela produção de rações e pela indústria de etanol. A competição entre exportação e processamento interno influencia os preços recebidos pelos agricultores e as decisões de comercialização ao longo do ano.

Entre janeiro e outubro, os embarques de milho poderão alcançar 25,56 milhões de toneladas. Na última semana do mês, a programação prevê 1,79 milhão de toneladas, com destaque para Santos, responsável por 637,3 mil toneladas, Barcarena, com 246,6 mil, e São Luís/Itaqui, com 211,9 mil.

A soja em grão apresenta comportamento diferente. A estimativa é de 6,15 milhões de toneladas exportadas em outubro, abaixo das 6,40 milhões registradas no mesmo mês de 2025. A redução mensal, entretanto, não altera o peso da oleaginosa na balança comercial brasileira. Caso a programação seja cumprida, o acumulado de janeiro a outubro chegará a 107,55 milhões de toneladas.

Além dos três principais produtos, o sorgo ganha espaço na movimentação portuária, com previsão de 1,24 milhão de toneladas exportadas em outubro. O crescimento desse mercado representa uma alternativa de comercialização para produtores que buscam diversificar culturas, especialmente nas regiões produtoras de grãos do Centro-Oeste.

A Anec também prevê embarques de 48,4 mil toneladas de grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS), coproduto da fabricação de etanol de cereais utilizado na alimentação animal. A presença desse produto na pauta exportadora acompanha a expansão das usinas de etanol de milho no Brasil.

No conjunto, soja, farelo, milho, sorgo, trigo e DDGS deverão somar 16,03 milhões de toneladas exportadas em outubro, crescimento de 15,8% sobre o mesmo mês de 2025. Entre janeiro e outubro, a movimentação poderá alcançar 159,02 milhões de toneladas.

Os números ainda são estimativas, elaboradas a partir da programação dos navios nos portos brasileiros, e poderão sofrer alterações até o fechamento do mês. A confirmação dos volumes dependerá do ritmo efetivo dos embarques.

Para o agronegócio, os resultados mostram uma mudança importante na composição das exportações. Enquanto a soja em grão perde ritmo na comparação mensal, o farelo ganha participação e o milho amplia sua presença no mercado externo. O desafio será transformar essa demanda em melhores condições de comercialização para o produtor, sem comprometer o abastecimento da indústria nacional e a competitividade das cadeias de proteína animal.



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Bicheira ameaça bezerros e causa R$ 1,8 bilhão de prejuízo

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Uma ferida aparentemente pequena no umbigo de um bezerro recém-nascido pode se transformar em uma perda irreversível para o pecuarista. A mosca-da-bicheira, responsável por infestações que destroem tecidos vivos, está associada a prejuízos potenciais estimados em aproximadamente R$ 1,8 bilhão na bovinocultura brasileira.

O problema, frequentemente tratado como uma ocorrência rotineira nas fazendas, ganhou atenção em uma revisão científica publicada em 2026, que reúne pesquisas sobre o controle de parasitas na América Latina e destaca a mortalidade de bezerros entre os principais impactos econômicos.

O trabalho, publicado na revista científica Pathogens, produzido por um grupo internacional de pesquisadores, com participação da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), recupera uma estimativa de US$ 340 milhões em perdas atribuídas à Cochliomyia hominivorax, nome científico da mosca-da-bicheira.

O valor corresponde a R$ 1,7 bilhão. A estimativa original, entretanto, foi produzida a partir de dados anteriores e não representa um levantamento das perdas efetivamente registradas em 2026. Também não inclui integralmente despesas com mão de obra, medicamentos e tratamento dos animais.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estuda o problema há décadas. Uma das contribuições mais diretamente relacionadas à realidade do produtor está na Embrapa Pantanal, que publicou orientações específicas para a prevenção e o tratamento das bicheiras em bezerros. O material chama atenção para um ponto decisivo: a proteção dos animais começa nos primeiros dias de vida, quando o umbigo ainda representa uma porta de entrada para a infestação.

A doença, conhecida tecnicamente como miíase, ocorre quando a fêmea deposita ovos nas bordas de ferimentos. Após a eclosão, as larvas passam a consumir tecidos vivos, aprofundando as lesões. Diferentemente de parasitas que se alimentam apenas de matéria orgânica em decomposição, a mosca-da-bicheira ataca o animal vivo e pode provocar infecções graves, sofrimento intenso e morte quando não há tratamento.

O risco é particularmente elevado nos recém-nascidos porque a região umbilical exige cicatrização e cuidados sanitários. Ferimentos provocados por castração, descorna, acidentes e outras práticas de manejo também favorecem a infestação. Em sistemas extensivos, nos quais os animais permanecem distribuídos por grandes áreas, a demora para identificar uma lesão pode agravar o problema.

O diferencial da pesquisa da Embrapa está em demonstrar que o controle não depende apenas de aplicar medicamentos depois que a bicheira aparece. Em estudos realizados com bezerros no Pantanal, pesquisadores avaliaram a eficácia de endectocidas utilizados na prevenção de miíases umbilicais. Os resultados, posteriormente incorporados à análise econômica nacional, registraram falhas de controle mesmo entre animais tratados, reforçando a necessidade de acompanhar a cicatrização do umbigo e verificar a resposta aos produtos empregados.

Um estudo publicado em 2014 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, com participação de pesquisadores da Embrapa Gado de Corte e da Embrapa Pantanal, reuniu resultados de diferentes investigações para dimensionar o impacto dos parasitas sobre a bovinocultura. No caso da mosca-da-bicheira, o cálculo considerou principalmente o risco de mortalidade de bezerros por infestações umbilicais.

A pesquisa recuperou um levantamento realizado no Centro-Oeste que identificou ocorrência de miíase umbilical em 40,7% dos bezerros acompanhados. Esse percentual se refere à população estudada e não deve ser interpretado como a incidência atual da doença em todo o rebanho brasileiro. Os pesquisadores também observaram que o uso de medicamentos preventivos não elimina completamente a possibilidade de infestação.

Essa constatação ajuda a explicar por que a bicheira continua representando um problema econômico mesmo em propriedades que mantêm programas sanitários. Além do custo dos tratamentos, a perda de um bezerro compromete o resultado da estação de nascimento, reduz o número de animais disponíveis para recria e representa a perda de um investimento feito ao longo da gestação.

Na pecuária leiteira, os efeitos também podem alcançar a produção. A morte de bezerros interfere no manejo das matrizes e pode gerar consequências adicionais sobre o aproveitamento produtivo das vacas, dependendo do sistema adotado. Em bovinos adultos, lesões graves podem comprometer o ganho de peso, a reprodução e o valor comercial dos animais.

A revisão científica de 2026 chama atenção para outra dificuldade: os custos indiretos da infestação ainda não estão completamente dimensionados. O tempo empregado na inspeção dos animais, a necessidade de separar bovinos para tratamento, as despesas veterinárias e o atraso no desenvolvimento de animais afetados aumentam o impacto econômico sobre as fazendas.

As condições climáticas também influenciam a presença do inseto. Temperaturas elevadas e ambientes favoráveis à reprodução das moscas ampliam a necessidade de vigilância, especialmente durante períodos de maior ocorrência de ferimentos e nascimento de bezerros. O risco, entretanto, varia conforme a região, a época do ano e o sistema de criação.

Para reduzir as perdas, as orientações técnicas da Embrapa destacam a importância dos cuidados com o umbigo dos recém-nascidos, da identificação rápida de feridas e do acompanhamento dos animais submetidos a procedimentos como castração e descorna. O tratamento de uma infestação instalada exige avaliação veterinária, eliminação adequada das larvas e proteção da lesão contra novas infestações.

O uso de medicamentos deve considerar produtos registrados para a indicação específica, dosagens corretas e períodos de carência para carne e leite. A aplicação indiscriminada de parasiticidas, além de aumentar os custos, pode favorecer problemas de resistência e comprometer a eficiência dos programas sanitários.

O principal alerta das pesquisas é que o prejuízo provocado pela mosca-da-bicheira não começa quando o produtor precisa comprar medicamentos. Ele começa quando uma lesão deixa de ser identificada a tempo e compromete a sobrevivência ou o desempenho de um animal. Na pecuária de cria, em que cada bezerro representa parte importante da receita futura, prevenir essas ocorrências é também uma medida de proteção do patrimônio da fazenda.

A estimativa bilionária recuperada pela literatura científica evidencia a dimensão potencial do problema, mas também revela a necessidade de atualizar os levantamentos econômicos brasileiros. Enquanto isso, a orientação mais consistente para o produtor permanece baseada em medidas conhecidas e comprovadas: vigilância do rebanho, cuidados sanitários nos primeiros dias de vida e tratamento imediato das lesões.

SAIBA MAIS
O artigo Management Practices for the Control of Haematobia irritans, Dermatobia hominis, and Cochliomyia hominivorax in Cattle Across Latin America: A Sustainable, Collective Approach,  foi publicado em 5 de fevereiro de 2026, na revista científica Pathogens, e tem como primeiro autor Roger Iván Rodríguez-Vivas, da Universidade Autônoma de Yucatán, no México. Entre os coautores estão Antonio Thadeu Medeiros de Barros, da Embrapa Gado de Corte, Marcelo Beltrão Molento, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e André Antonio Cutolo, vinculado à Boehringer Ingelheim Animal Health, nos Estados Unidos. A pesquisa também contou com especialistas da Argentina, Colômbia, Uruguai e Alemanha.

Fonte: Pensar Agro



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