Agricultura
Novas exigências desafiam a ampliação da rastreabilidade e controle de medicamentos
Agricultura
As novas exigências da União Europeia para importação de proteína animal colocaram um desafio adicional para a pecuária brasileira: ampliar os mecanismos de rastreabilidade e comprovar o uso adequado de medicamentos veterinários em uma cadeia que reúne cerca de 235 milhões de cabeças de bovinos, a maior do mundo em termos comerciais.
A pressão ocorre em um momento de aumento das barreiras não tarifárias ao comércio internacional. Além das exigências ambientais, como o regulamento antidesmatamento (EUDR), o bloco europeu vem reforçando regras relacionadas à segurança alimentar e ao uso de antimicrobianos na produção animal. O tema preocupa exportadores e entidades do setor, que veem a necessidade de acelerar sistemas de monitoramento e certificação para preservar o acesso a mercados de maior valor agregado.
O Brasil exportou 3,1 milhões de toneladas de carne bovina em 2025, volume recorde da série histórica, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A União Europeia respondeu por cerca de 80 mil toneladas embarcadas no ano passado, participação inferior à da China, mas considerada estratégica por representar um mercado de maior valor agregado e referência para outros compradores.
As exigências europeias incluem maior controle sobre o uso de substâncias antimicrobianas classificadas como críticas para a saúde humana. Desde 2022, o bloco proibiu a importação de produtos de origem animal obtidos com o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento e ampliou as exigências de comprovação sobre os sistemas de produção adotados pelos países fornecedores.
Especialistas do setor avaliam que o desafio brasileiro não está na ausência de tecnologia, mas na capacidade de demonstrar e documentar as práticas realizadas nas propriedades rurais. O sistema de identificação e certificação existente no País foi desenvolvido para atender mercados específicos, mas a tendência é de expansão das exigências relacionadas à origem dos animais, histórico sanitário e utilização de medicamentos.
Criado em 2002, o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov) atende principalmente propriedades habilitadas para exportação. Em paralelo, o Ministério da Agricultura lançou, em 2024, o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), que prevê a implementação gradual da rastreabilidade do rebanho nacional até 2032.
A ampliação dos mecanismos de controle ocorre em um cenário de crescente concorrência internacional. Países como Uruguai e Austrália já operam sistemas nacionais de rastreabilidade individual, condição que facilita o acesso a mercados mais exigentes e fortalece a capacidade de resposta diante de questionamentos sanitários.
Segundo entidades da cadeia pecuária, a adoção de ferramentas de monitoramento do uso de medicamentos veterinários e a ampliação dos sistemas de rastreabilidade tendem a ganhar importância nos próximos anos, à medida que questões sanitárias e de sustentabilidade assumem peso crescente nas negociações comerciais.
Com a elevação das exigências dos principais importadores, a capacidade de comprovar a origem dos animais e os protocolos adotados nas propriedades passa a ser vista pelo setor não apenas como uma exigência regulatória, mas como um fator de competitividade para a carne brasileira no mercado internacional.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Safra 26/27 deve começar sob excesso de chuva no Sul e seca no Centro-Oeste
O plantio da safra de verão 2026/27 deverá começar sob riscos climáticos opostos: excesso de chuva no Sul e perda de umidade no solo no Centro-Oeste. Enquanto a chuva acima da média ameaça aumentar a pressão de doenças sobre o trigo no Sul, a redução da umidade do solo poderá dificultar a implantação da soja no Centro-Oeste. Temperaturas mais elevadas também são previstas para praticamente todo o País.
O cenário consta do Boletim Agroclimatológico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), elaborado para o trimestre de julho a setembro. O período é decisivo porque combina o desenvolvimento das culturas de inverno, a conclusão da colheita do milho e do algodão e a preparação de aproximadamente 49 milhões de hectares para o plantio da próxima safra de soja.
A preocupação aumenta com o fortalecimento do El Niño. O fenômeno já está ativo no Oceano Pacífico e deverá ganhar intensidade até o fim do ano, segundo o centro de previsão climática dos Estados Unidos. A probabilidade de permanecer até o início de 2027 é de 97%.
Modelos experimentais indicam a possibilidade de um episódio muito forte. A expressão “Super El Niño”, porém, não constitui uma categoria meteorológica oficial e não deve ser tratada como uma intensidade já confirmada. A força definitiva do evento dependerá da evolução das temperaturas do Pacífico nos próximos meses.
No Sul, a previsão indica chuva acima da média em praticamente toda a região, acompanhada de temperaturas mais elevadas. A disponibilidade de água no solo deverá permanecer alta, condição inicialmente favorável ao desenvolvimento do trigo, da aveia, da cevada e de outras culturas de inverno.
O problema aparece quando a umidade persiste. Períodos prolongados de chuva e nebulosidade reduzem a entrada de máquinas, dificultam a aplicação de defensivos e criam ambiente favorável às doenças fúngicas. Dependendo da fase das lavouras, também podem provocar acamamento, germinação dos grãos ainda na espiga e perda de qualidade.
O alerta ocorre em uma safra que já começou menor. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil colherá 6 milhões de toneladas de trigo em 2026, queda de 23,5% em relação ao ano anterior. Com menos área e produtividade projetada mais baixa, novas perdas climáticas aumentariam a necessidade de importação do cereal.
A chuva no Sul também poderá reduzir as janelas disponíveis para concluir a colheita do milho segunda safra no Paraná. O Estado entrou na segunda metade de julho com os trabalhos atrasados em relação às temporadas anteriores. A umidade elevada não significa necessariamente perda imediata, mas aumenta os gastos com secagem e o risco de deterioração quando o milho maduro permanece por mais tempo no campo.
No Centro-Oeste, o quadro é diferente. A previsão de chuvas próximas da média e temperaturas elevadas tende a favorecer a conclusão da colheita do milho e do algodão. Mato Grosso já retirou mais de 90% do milho, mas Mato Grosso do Sul e Goiás ainda têm uma parcela expressiva da produção nas lavouras.
O tempo mais seco ajuda as máquinas, reduz a umidade dos grãos e facilita o transporte. Ao mesmo tempo, o armazenamento de água no solo deverá cair progressivamente entre agosto e setembro, justamente quando começam os preparativos para a soja.
A área brasileira de soja poderá chegar a 49,1 milhões de hectares em 2026/27. As primeiras estimativas apontam produção próxima de 180 milhões de toneladas, mas esse potencial dependerá da regularização das chuvas a partir de setembro.
Em Mato Grosso, maior produtor nacional, o vazio sanitário termina em 6 de setembro. Isso não significa que o plantio começará imediatamente em todas as propriedades. Para uma germinação uniforme, o produtor precisa encontrar umidade suficiente no perfil do solo e perspectiva de continuidade das precipitações.
O chamado “plantio no pó”, realizado antes da consolidação das chuvas, aumenta o risco de germinação irregular e replantio. A decisão de esperar também tem custo, porque o atraso da soja reduz a janela disponível para o milho e o algodão cultivados na sequência.
No Sudeste, o boletim prevê chuvas próximas da média na maior parte da região, com volumes menores no Espírito Santo e no extremo nordeste de Minas Gerais. Áreas do sul e do leste de São Paulo podem receber precipitações acima do padrão.
As temperaturas deverão permanecer elevadas em toda a região. A redução da água armazenada no solo exige atenção nas lavouras de café e no trigo cultivado sem irrigação. Para a cafeicultura, agosto e setembro também marcam a conclusão da colheita e a preparação das plantas para a próxima florada.
Chuvas durante a colheita podem interromper a retirada e a secagem do café, enquanto a falta de umidade no momento da florada prejudica o pegamento dos frutos. O produtor, portanto, enfrenta um equilíbrio delicado entre a necessidade de tempo seco para finalizar a safra atual e a chegada das precipitações necessárias ao próximo ciclo.
No Nordeste, a tendência é de chuva abaixo da média e calor mais intenso. A combinação deverá ampliar o déficit hídrico e aumentar os riscos para milho e feijão de terceira safra cultivados sem irrigação. Nas áreas onde o solo já possui pouca reserva, mesmo períodos curtos de estiagem podem comprometer o enchimento dos grãos.
O tempo seco, por outro lado, favorece a maturação e a colheita do algodão no oeste do Matopiba. A menor umidade reduz interrupções, facilita o funcionamento das máquinas e ajuda a preservar a qualidade da pluma, desde que não seja acompanhada por calor extremo ou ventos capazes de aumentar perdas.
Na Região Norte, a disponibilidade de água deverá continuar satisfatória em algumas áreas durante julho e agosto, beneficiando milho e sorgo em maturação. No centro-sul da região, entretanto, o déficit hídrico tende a se intensificar ao longo do trimestre, elevando também o risco de incêndios e os problemas para pastagens.
O impacto econômico do El Niño não será uniforme. O mesmo fenômeno capaz de aumentar as chuvas em uma região pode provocar seca em outra. Também não é possível concluir antecipadamente que determinado produto necessariamente ficará mais caro, porque os preços dependem dos estoques, da demanda, do câmbio e da produção de vários países.
O Brasil chega a esse período com uma produção de grãos estimada em 360,1 milhões de toneladas na safra 2025/26. O volume inclui 180,3 milhões de toneladas de soja e 141,7 milhões de milho. Além de abastecer o mercado interno, o País deverá exportar 116,3 milhões de toneladas de soja e permanece entre os maiores fornecedores mundiais de milho, carnes, açúcar e café.
Essa posição cria oportunidades quando concorrentes enfrentam perdas, mas não garante rentabilidade. Uma oferta brasileira maior pode pressionar as cotações internacionais, enquanto fertilizantes, crédito, frete, energia e armazenagem continuam pesando sobre os custos.
A recomendação é que o produtor acompanhe não apenas o volume previsto de chuva, mas também a distribuição das precipitações em sua propriedade. Escalonamento do plantio, escolha de cultivares, manejo de doenças, seguro rural, comercialização antecipada e proteção de preços ganham importância em uma safra marcada por maior instabilidade.
Fonte: Pensar Agro
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