Opinião
Todos, um dia, conhecem um Saci!
Opinião
*Kamila Garcia
Todos sabem, desde criança, que no folclore brasileiro, a figura do Saci é muito presente e bastante enigmática. Um menino com gorro vermelho, que se movimenta num redemoinho, pula numa perna só e faz muita travessura. Mas o que pouca gente sabe é que ele nasceu de um broto de bambu, onde ficou durante sete anos, e que no dia 31 de outubro, no Brasil, comemora-se o dia dele.
Há relatos muito antigos de que esses seres ou espíritos, altamente selvagens e geralmente mal-educados, vivem entre nós e, desde tempos coloniais, são reconhecidos por sua grosseria e estranha maneira de ser, com falta de elegância e extrema arrogância, tanto no pensar quanto no falar. Eles também se julgam grandes conhecedores de seu universo, sobretudo do bambu.
As peripécias do Saci vão desde trançar a crina do cavalo até sumir com utensílios de cozinha, causando barbaridades, confusões e até tirando o sono e a tranquilidade de quem convivia com eles. Folclore ou não, esse grande mito faz parte do imaginário infantil brasileiro, sendo considerado o protetor das matas e de toda a vegetação. Nele, enraízam-se os mistérios das florestas e o suspense que envolve o bambu.
O bambu, com sua elegância e resistência, é uma verdadeira obra de arte da natureza. Seus rizomas, semelhantes a raízes, se espalham subterraneamente, formando um sistema forte e flexível. Ao emergir do solo, seus colmos crescem a uma velocidade impressionante, podendo alcançar mais de um metro em um único dia, em condições ideais. Essa capacidade de crescimento rápido simboliza a força interior e a perseverança. Assim como o bambu se adapta a diversos climas e solos, nós também podemos superar desafios e nos transformar. Seus colmos ocos representam a humildade, pois, apesar de sua força, o bambu permanece flexível e aberto às mudanças.
Certa vez, na tentativa de desqualificar o conhecimento alheio, um Saci, com sua arrogância, tentou proteger seus interesses pessoais escusos e comparou um jovem aprendiz de Saci ao bambu. Esse jovem ingênuo acreditou no que o Saci lhe disse — que o bambu crescia durante cinco anos para baixo e depois, de forma lenta, começava a crescer acima da terra. A mensagem do Saci insinuava que o amadurecimento do aprendiz jamais aconteceria e que ele nunca alcançaria o status de Saci.
Contudo, o aprendiz não se deixou abater. Assim como o bambu, ele resistiu e brotou da terra, mantendo seu crescimento firme e multifacetado, sob a luz do Sol, astro-rei na cosmologia e soberano sobre a Terra. Com o tempo, o jovem aprendiz encontrou um novo mestre, um sábio que lhe mostrou o verdadeiro conhecimento, repleto de verdade e simplicidade.
O conhecimento, de fato, liberta. O bambu, ao contrário do que o Saci dissera, não possui raízes profundas, mas rizomas, e não precisa de tanto tempo para crescer. Em cinco ou seis anos, ele já está pronto para ser utilizado em diversas formas de arte, reafirmando sua capacidade de adaptação e renovação. Assim como o bambu, o aprendiz floresceu e encontrou seu caminho, guiado por um mestre que não hesitava em compartilhar seu saber com amorosidade. Este sábio, ao contrário do Saci, era um verdadeiro guardião da natureza humana, conhecedor das plantas, das florestas e, claro, do bambu.
A história do jovem aprendiz e do bambu nos ensina que o conhecimento é uma jornada contínua, repleta de descobertas e transformações. Assim como o bambu, que encontra sua força na simplicidade e na adaptação, nós também podemos crescer e evoluir, superando nossos limites e encontrando nosso lugar no mundo. Aprender a valorizar a natureza e a buscar o conhecimento verdadeiro é um passo fundamental para construir um futuro mais sustentável e harmonioso.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Atualmente, ela equilibra sua rotina entre o trabalho e estudos em Psicanálise e Psicologia Positiva, além de se dedicar às terapias holísticas. Como coach, Kamila utiliza seus conhecimentos para compartilhar insights sobre espiritualidade, ajudando seus clientes a alcançar um maior bem-estar e autoconhecimento.
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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