Opinião
É momento de proteger a carteira
Opinião
Por: João Paulo Fortunato
Quando o assunto é investimentos, sempre ouvimos falar que não se deve colocar todos os ovos numa mesma cesta. Em momentos de incerteza, como o que estamos vivendo agora, essa máxima nunca foi tão oportuna. Mas, como escolher a melhor opção para aplicar suas reservas, num cenário com tanta volatilidade? A resposta é: cautela e informação.
Desde 2018, vemos um movimento ascendente de brasileiros na bolsa de valores. Ano passado a bolsa bateu recordes e muito mais investidores passaram a alocar parte dos seus recursos no mercado de ações. Mas a bolsa, investimento de renda variável, logo, apresenta maior risco, assim como maior volatilidade frente à renda fixa. Foi o que aconteceu nos últimos meses, com perdas significativas e que vão demorar algum tempo, talvez anos, para serem recuperadas.
Há 60 dias, o mercado financeiro está vendo um movimento enorme de deslocamento de dinheiro para investimentos com perfil mais moderado e conservador, como é o caso da renda fixa. O momento agora é de proteger a carteira e a renda fixa, que são modalidades mais conversadoras. Pode ser uma alternativa viável, sem deixar de lado a segurança.
Contudo, mesmo dentro desse universo mais seguro, é importante entender a composição da sua cesta de ovos e qual o prazo de uso do seu dinheiro, antes de decidir a melhor opção que se adeque ao seu perfil e seus objetivos de curto, médio ou longo prazo.
Curto prazo é aquela reserva de emergência, que você pode precisar de uma hora para outra. Importante atentar-se à liquidez e o risco do investimento, haja vista que precisará do recurso disponível em um pequeno espaço de tempo, priorizando a segurança do dinheiro.
Na cesta de longo prazo deve entrar aquele dinheiro que não será utilizado de imediato, cujos investimentos serão destinados a metas a partir de 5 anos, acumulando recursos para uma aposentadoria confortável, futuro dos filhos, entre outros. Nesta opção, o investidor busca maior rentabilidade nos produtos financeiros disponíveis, aproveitando o efeito dos juros compostos ao longo no tempo.
Na renda fixa de curto e médio prazo, a sua cesta pode ter RDC’s, CDB’s, Tesouro Direto, Letras Financeiras e Fundos de Investimentos. No longo prazo, você vai encontrar, além dos investimentos citados, ações, títulos privados e debêntures de empresas. As opções são muitas, mas em qualquer uma delas é sempre importante analisar as taxas, tarifas e impostos envolvidos, pois isso impacta diretamente na rentabilidade final de seus investimentos.
Para os investidores que são associados à uma cooperativa de crédito, essas instituições financeiras oferecem algumas vantagens em seus produtos de renda fixa, como é o caso da Unicred Mato Grosso, pois além da rentabilidade do investimento em RDC (Recibo de Depósito Cooperativo), as sobras geradas ao final de cada exercício, que são o resultado operacional da cooperativa, são distribuídas anualmente a todos os associados, rentabilizando ainda mais os seus investimentos.
Diversificação sempre foi palavra de ordem no mercado financeiro. A sua carteira de investimentos deve ser composta por diversos ativos, com variados níveis de risco, prazos e liquidez. Em momentos de crise, um investimento deve compensar e equilibrar o outro, minimizando eventuais perdas em suas aplicações.
Se você tiver que escolher quais ovos colocar em sua cesta agora, sobretudo, quanto às novas aplicações destinadas a curto e médio prazo, sugiro atenção e que considere o investimento de parte de suas economias em renda fixa. Em cenários voláteis e imprevisíveis, manter a cautela e buscar orientações de especialistas é de suma importância para manter os seus investimentos protegidos.
João Paulo Fortunato
Consultor Financeiro e Vice-Presidente da Unicred Mato Grosso
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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