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“Em terra de cego, quem tem um real é quase nada…”

“Pois bem: nessas pausas entre novelas e mercados, posso cravar o seguinte: Jeremias tinha razão! Esmola pouca é troco de pinga, Joel também tem razão, um real não dá pra nada!”

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O pessoal da faixa dos 50 vai se lembrar de um personagem icônico vivido por Arnaud Rodrigues na novela “Roque Santeiro”.

Arnaud dava vida ao “Cego Jeremias”, que vivia de esmolas e não tinha nada de cego, ao contrário, estava atento a tudo que acontecia, dava “pitacos” e ainda reclamava do valor da espórtula, ao ponto de exclamar: “Deus lhe dê em triplo, porque o dobro não dá pra nada!”

Bem, fazendo uma ligeira e desproporcional analogia com a realidade, aqui em Cuiabá temos um personagem do cotidiano que também conhece muito bem a rotina da cidade, falo do simpático “Joel Um Real”, conhecido “flanelinha” que ganhou o carinhoso apelido por motivos óbvios, ele cuida (ou cuidava) dos carros estacionados ao longo da avenida Historiador Rubens de Mendonça por apenas um real, mas isso foi antes dos severos efeitos inflacionários, porque agora é “Joel Um Dólar!”

Tais efeitos, que puderam ser percebidos pelo Jeremias e pelo Joel, também podem ser percebidos por qualquer trabalhador, principalmente quando vai às compras!

Eu, por exemplo, percebi que não existe mais quase nada que custe um real ou menos, caí na besteira de converter os preços para saber o valor da unidade, e querem saber? Um limão custa mais de um real, uma cenoura custa mais de um real, uma beterraba também, acho que só o ovo ainda custa um pouco menos, mas não pode ser da casca vermelha!

Pois bem: nessas pausas entre novelas e mercados, posso cravar o seguinte: Jeremias tinha razão! Esmola pouca é troco de pinga, Joel também tem razão, um real não dá pra nada!

E o salário?

– O salário, ó…

(Fred Henrique Gadonski)

Advogado Fred Henrique Gadonski
Arquivo Pessoal

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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