ARTIGO
“Em terra de cego, quem tem um real é quase nada…”
“Pois bem: nessas pausas entre novelas e mercados, posso cravar o seguinte: Jeremias tinha razão! Esmola pouca é troco de pinga, Joel também tem razão, um real não dá pra nada!”
Opinião
O pessoal da faixa dos 50 vai se lembrar de um personagem icônico vivido por Arnaud Rodrigues na novela “Roque Santeiro”.
Arnaud dava vida ao “Cego Jeremias”, que vivia de esmolas e não tinha nada de cego, ao contrário, estava atento a tudo que acontecia, dava “pitacos” e ainda reclamava do valor da espórtula, ao ponto de exclamar: “Deus lhe dê em triplo, porque o dobro não dá pra nada!”
Bem, fazendo uma ligeira e desproporcional analogia com a realidade, aqui em Cuiabá temos um personagem do cotidiano que também conhece muito bem a rotina da cidade, falo do simpático “Joel Um Real”, conhecido “flanelinha” que ganhou o carinhoso apelido por motivos óbvios, ele cuida (ou cuidava) dos carros estacionados ao longo da avenida Historiador Rubens de Mendonça por apenas um real, mas isso foi antes dos severos efeitos inflacionários, porque agora é “Joel Um Dólar!”
Tais efeitos, que puderam ser percebidos pelo Jeremias e pelo Joel, também podem ser percebidos por qualquer trabalhador, principalmente quando vai às compras!
Eu, por exemplo, percebi que não existe mais quase nada que custe um real ou menos, caí na besteira de converter os preços para saber o valor da unidade, e querem saber? Um limão custa mais de um real, uma cenoura custa mais de um real, uma beterraba também, acho que só o ovo ainda custa um pouco menos, mas não pode ser da casca vermelha!
Pois bem: nessas pausas entre novelas e mercados, posso cravar o seguinte: Jeremias tinha razão! Esmola pouca é troco de pinga, Joel também tem razão, um real não dá pra nada!
E o salário?
– O salário, ó…
(Fred Henrique Gadonski)

Advogado Fred Henrique Gadonski
Arquivo Pessoal
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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