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Gravidez tardia, o assunto do momento

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Foto: Assessoria/Divulgação

Os novos hábitos e estilos de vida têm influenciado também na formação do modo que as famílias têm se criado. É cada vez mais comum ver casais adiando o sonho de ter filhos em prol de outros projetos pessoais, já que as prioridades de hoje são outras. Consequentemente, a idade para engravidar tem aumentado cada vez mais, assunto mais comentado na internet por conta do anúncio da gravidez da atriz Cláudia Raia, aos 55 anos.

Segundo médicos da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), os principais motivos para o adiamento da gestação apontados pelas mulheres que chegam em seus consultórios são a escolha do parceiro certo para constituir uma família, busca por estabilidade financeira e maturidade para conceber um filho, além de novos relacionamentos.

Felizmente, a medicina reprodutiva está avançando para ajudar nessas situações. Atualmente, por exemplo, existem métodos de congelamento de gametas e os tratamentos em reprodução assistida, que favorecem, especialmente, casais com idade acima da indicada para uma gestação.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que, entre 2010 e 2020, a quantidade de  mulheres que deram à luz após os 50 anos cresceu 55%. O adiamento da maternidade é uma tendência incontestável. Muitas mulheres com esse desejo planejam engravidar por volta dos 40 anos de idade — prova disso é o aumento no número de partos nesta faixa etária, que cresceu 33% em uma década (entre 2009 e 2019).

Outras adiam ainda mais esse sonho. No entanto, mesmo que, com o suporte oferecido pela medicina reprodutiva, a possibilidade de engravidar após os 50 anos seja real, as chances são pequenas e os riscos bem maiores do que para as grávidas mais jovens.

Após os 50 anos, as chances de ocorrer uma gravidez espontânea são raríssimas. Em alguns casos, porém, a medicina reprodutiva pode ajudar — mas ainda assim, as taxas de sucesso são baixas.

Para fazer um processo de reprodução assistida nessa idade, a mulher precisa ter o aval de seus médicos. Eles têm que atestar que ela possui uma saúde perfeita, principalmente, em relação a parte obstétrica.

Caso consiga fazer o tratamento e engravidar, a paciente deve ser encaminhada para um pré-natal de alto risco. “Isso é essencial para que ela possa ter uma gravidez saudável e para que seu filho também nasça com saúde”

Existem inúmeros riscos associados à gravidez acima dos 50 anos. Os principais são: hipertensão arterial; diabetes mellitus; parto prematuro; abortamento; cromossomopatias, anormalidades da placenta, gestação ectópica (fora do útero) e pré-eclâmpsia.

Quando se deseja engravidar naturalmente, a idade ideal é de 20 a 29 anos.  Porém, até os 35 anos a maioria das mulheres consegue engravidar sem problemas.

A partir daí, a capacidade reprodutiva feminina diminui gradativamente, com o declínio acentuado da reserva ovariana.

Na faixa dos 50 anos, a probabilidade de existirem óvulos capazes de serem fecundados naturalmente é quase nula.

Com o avanço nos estudos, diversos tratamentos foram desenvolvidos e já é possível conseguir uma gestação saudável e sem riscos até os 50 anos. A fertilização in vitro, a inseminação artificial e o tratamento hormonal são alguns deles.

Uma boa técnica, também, é optar pelo congelamento de óvulos e espermatozóides, no período fértil masculino e feminino para engravidar posteriormente. Dessa maneira, eles permanecerão saudáveis por muito mais tempo, aumentando o sucesso da gravidez acontecer.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), as técnicas de reprodução assistida podem ser realizadas, somente, até os 50 anos. Isso, contanto que exista real possibilidade de sucesso e baixa probabilidade de riscos graves, tanto para a candidata ao procedimento como para seu(s) futuro(s) bebê(s).

Exceções, por sua vez, precisam ser baseadas em critérios técnicos e científicos, fundamentados pela equipe responsável. Se consideradas plausíveis e se houver consentimento do paciente para com todos os riscos envolvidos, pode-se indicar o tratamento acima desse limite. Assim, esta resolução traz de volta o equilíbrio e o bom senso de que cada pessoa é um ser ímpar e os tratamentos devem ser individualizados e customizados, e não generalizados.

A boa notícia é que, com os avanços na área da medicina reprodutiva, pode-se viabilizar uma gestação saudável até essa idade. Isso, no caso das mulheres que fizeram o congelamento de óvulos.

Assim, é possível engravidar após os 50 anos — no entanto, não se trata de algo simples, garantido ou, muito menos, acessível à maioria das pacientes. A gravidez nessa faixa etária é, sim, uma realidade. Mas ainda que ela faça parte da modernidade da mulher, é preciso analisar cada caso individualmente.

Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade, é professora no HUJM e integra a equipe da Clínica Eladium

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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