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Março Azul alerta para o câncer colorretal

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O Brasil, conforme projeção do Instituto Nacional de Câncer (Inca), do deve ter 41 mil novos casos de câncer colorretal diagnosticados em 2022. Trata-se de um tumor com maior incidência em todo o mundo e no nosso país, lamentavelmente, é o segundo tumor que mais acomete mulheres (atrás apenas do câncer de mama) e o terceiro mais frequente em homens.

Este quadro justifica o Março Azul, campanha da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed) e Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBPC), que alerta a população para a importância da prevenção e para a gravidade da doença caso diagnosticada tardiamente, lembrando que dia 27 de março é o Dia Nacional de Combate ao Câncer de Intestino.

Esses tumores se originam de pólipos, que são pequenas lesões benignas que podem crescer na parede interna do intestino grosso, desde o cólon (a maior parte do órgão) até o reto (a parte final, antes do ânus).

O câncer colorretal pode se manifestar de forma silenciosa, porque os sintomas dificilmente são detectados pela própria pessoa. Por vezes, até o médico tem dificuldade de diagnosticar só pela descrição do paciente, já que os eventuais sintomas relatados podem ser relacionados a outras doenças. Justamente por isso, março foi eleito o mês de conscientização: da população, para fazer consultas regulares, e da comunidade médica, para incluir o câncer colorretal na investigação precoce, mesmo sem tantas evidências que indiquem a isso.

O câncer colorretal tem cura, se for descoberto cedo. No entanto, é o tipo de doença em que dificilmente isso acontece. Isso porque ele faz parte de um assunto tabu e, portanto, muitos pacientes só procuram ajuda médica quando a doença já está em estágio avançado. Importante frisar que durante a pandemia houve um aumento no número de casos.

Além disso, os próprios sintomas também atrapalham, já que costumam ser, inicialmente, relacionados a quaisquer outras doenças. Os mais comuns são: diarreia ou constipação; cólica, dor abdominal ou sensação de inchaço; presença de sangue nas fezes; perda de peso repentina; anemia; náuseas e vômitos.

O diagnóstico costuma ser feito com exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos. Em geral, o câncer colorretal é detectado por meio de sangue escondido nas fezes, ou, então, de exames de endoscopia. No mais comum deles, a colonoscopia, um pequeno tubo flexível, com uma câmera na ponta, é introduzido no organismo, permitindo que o médico visualize toda a parte interna do intestino grosso. A colonoscopia é considerada, hoje, o melhor exame para diagnóstico do câncer colorretal.

Se o tumor for identificado, o tratamento pode incluir cirurgia, quimioterapia e radioterapia. A cirurgia é o principal tratamento para o câncer em estágio inicial, já que retira a parte afetada do intestino e os nódulos linfáticos próximos à região. Em seguida, a radioterapia, associada ou não à quimioterapia, é utilizada para diminuir a possibilidade de volta do tumor.

O tratamento, no entanto, vai depender do tamanho, da localização e da extensão do tumor. Se a doença já tiver se espalhado, as chances de cura diminuem consideravelmente.

Câncer colorretal, a doença do estilo de vida

O câncer colorretal é considerado uma doença do estilo de vida. Isso porque os fatores de risco que determinam o surgimento e o crescimento do tumor dependem quase que exclusivamente dos próprios pacientes.

Uma vida marcada por sedentarismo, fumo, ingestão de bebidas alcoólicas e o consumo excessivo de carnes vermelhas e alimentos processados, como defumados e embutidos, por exemplo, são suficientes para aumentar as chances da pessoa desenvolver o câncer.

O contrário, no entanto, já produz efeito positivo. E atenção: tem mais de 50 anos e o histórico familiar de câncer precisa realizar exames de rotina com mais frequência. Portanto, se você faz parte desse grupo ou, então, se percebe algo errado em seu organismo, não hesite em procurar um médico. Se o câncer colorretal tem boas chances de cura, previna-se antes que seja tarde.

Dr. Mardem Machado é coloproctologista e Coordenador da residência médica de Coloproctologia do HUJM

Foto: Divulgação

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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