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‘Aqui, só eu toco’

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Dulce Figueiredo

Como falar sobre abuso sexual com as crianças? Costumo responder que essa conversa só precisará acontecer se a família não construir valores cotidianos sobre a importância, o cuidado e o respeito pelo corpo.

É possível agir preventivamente, ao construir, no dia-a-dia, desde muito cedo, uma relação saudável da criança com o corpo. O primeiro passo é nomear todas as partes, inclusive as íntimas, falando sobre suas funções, cuidados e higiene de forma aberta e clara.

A cada faixa etária ampliamos as informações sobre as funções e consequências da falta de cuidados e carinho com o corpo. É muito importante validar o desejo da criança de não receber carinho de pessoas estranhas, amigos da família ou parentes.

Assim, ela saberá que pode dizer não quando se sentir constrangida, envergonhada ou com dor durante um carinho. As crianças não sabem diferenciar carinhos saudáveis de carinhos abusivos se não puderem exercer e exercitar esse direito de escolha.

Nós, brasileiros, somos muito calorosos nos contatos interpessoais e, muitas vezes, ensinamos e até mesmo obrigamos as crianças a aceitarem carinho de outros adultos sem consultá-las. Assim, as crianças ficam confusas quando os pais as orientam a dizer não para carinhos abusivos.

É muito difícil para uma criança perceber a intenção por trás do carinho de um adulto. Seja direto e objetivo ensinando sua criança a não permitir que outros vejam ou toquem suas partes íntimas e que, por sua vez, ela não toque nas partes do corpo do outro.

A regra “aqui, só eu toco” ajuda a criança a estabelecer um limite claro para si e para o outro. Ensine ainda seu filho ou filha a perguntar a um adulto de confiança, sempre que tiver dúvidas, sobre o comportamento de determinada pessoa.

A família deve construir com a criança um círculo de confiança, entre ela e os adultos com os quais possa contar, quando precisar perguntar ou dizer algo. Nesse círculo deve haver outras pessoas de confiança além dos pais, pois muitas vezes o agressor ameaça tirar a vida dos pais da criança e será a essas pessoas que ela poderá pedir ajuda.

O segredo é a tática usada pelos agressores, dessa forma, diferencie segredos bons de segredos maus. O segredo que causa tristeza, ansiedade, medo não é bom e deve ser contado para alguém do círculo de confiança. Um segredo bom causa alegria, expectativa, como uma festa surpresa.

Os agressores são geralmente pessoas próximas da família que usam estratégias de aliciamento para ganhar a confiança da criança, entre elas, dar presentes (balas e objetos) e também pedem segredo. Então, a regra em casa deve ser contar sempre para alguém do círculo quando uma pessoa lhe pedir para guardar segredos, oferecer presentes, balas, lembrancinhas ou tentar ficar a sós com ela.

Uma em cada cinco crianças é vítima de violência ou abuso sexual, não importando raça, classe social, poder aquisitivo ou gênero. Os principais agressores são da própria família (pai, padrasto, tio, irmão mais velho, avô), amigos próximos ou profissionais encarregados da educação e/ou formação da criança ou que estejam nesses ambientes. A família deve ficar atenta a qualquer estória que a criança conte, mesmo que use personagens infantis para exemplificar, muitas vezes é mais fácil contar sobre o abuso dessa forma. Então, atenção se de repente o ‘lobo mau’ tocar alguma parte íntima da ‘Chapeuzinho Vermelho’, porque pode ser um pedido de ajuda.

Quando posso iniciar esse processo de orientação quanto ao abuso sexual com meus filhos? A regra “aqui, só eu toco” pode ser introduzida a partir do momento em que ela esteja apta a fazer sua higiene pessoal, sem assistência direta dos pais.

Como atualmente pais e filhos convivem cada vez menos em função do trabalho, é necessário criar um momento diário para troca de informações sobre o dia de cada um. A criança deve ser incentivada a dizer com quem esteve e o que fizeram juntos, uma estratégia consciente para o reforço de vínculos, no círculo de confiança.

Fique sempre atento, pois esta situação é muito frequente e traz muitos prejuízos ao desenvolvimento da criança, gerando traumas difíceis de serem apagados. Nos relacionamentos familiares, troque silêncio por diálogo; medo e tabu por construção de conhecimento e amor pelo próprio corpo.

Dulce Figueiredo, psicóloga com 24 anos de experiência e pedagoga pela UFRJ, especialização em terapia de família sistêmica, MBA Gestão de Recursos Humanos,@psicologadulcefigueiredo, dulcefig@gmail.com

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Saúde mental é inegociável

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O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.

Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.

Os números que não podem mais ser ignorados

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.

No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.

O papel da segurança psicológica

Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.

Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.

A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.

O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.

O que aprendemos na prática

Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.

Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.

Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.

Em dez anos, a pauta amadureceu.

Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.

A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.

* Tatiana Pimenta CEO da Vittude



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