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É O FIM?

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Por: Auremarcio Carvalho

 

Após quase dez horas de julgamento, a 8ª Turma do TRF-4 (Tribunal Federal da 4ª Região, sede em Porto Alegre-RS, condenou por 03 votos a zero (3 x0), o ex-presidente Lula e aumentou-lhe a pena para 12 anos e 01 mês, por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Na verdade, a Turma negou provimento ao Recurso de Apelação Criminal da Defesa.

Uma rotina que ocorre em todos os Tribunas de instâncias superiores- TJ´s dos Estados, TRF´s, STJ, TST, STF e outros. Nada, pois, a admirar. Mas, o fato tem tomado ares de tragédia para o Brasil, como se o personagem fosse intocável e estivesse acima da lei e da Constituição. Pelo placar, o único recurso possível é o chamado Embargos de Declaração, que, a rigor, não muda a essência da sentença, apenas corrige erros materiais, obscuridades e questiona possível pontos ou fatos não apreciados na sentença.

No TRF-4 há uma Súnula que determina o cumprimento da decisão- no caso, a prisão de Lula- após o julgamento dos Embargos no próprio Tribunal. Aqui é que o carro pega, como se diz popularmente. Como está, desde essa condenação, Lula é  inelegível, e a espectativa é se a lei realmente vale para todos, ou se todos são iguais perante ela, ou se  com Lula será diferente, surgindo uma jabuticaba no caminho: STJ ou  STF, suspendo, no caso concreto, os efeitos da Lei da Ficha Limpa. De certo modo, o destino de Lula no TRF 4 anima os demais condenados na Lava Jato no que diz respeito à execução antecipada da pena.

Com o receio da instabilidade social decorrente de uma prisão iminente do ex-presidente, por certo aumentará a pressão para o Supremo rever a guinada jurisprudencial que deu em 2016, permitindo a execução da pena a condenados em segundo grau, ou seja, colegiado, mesmo que continue a recorrer, mas, preso. Aliás, o Procurador Federal que atuou na acusação fez referência dura aos movimentos de pressão em prol do ex-presidente, que, não só em Porto Alegre, mas em quase todas as capitais, usando até as redes sociais, procuravam desmoralizar os desembargadores, intimidar a Justiça, ao dizer:

O que mais me surpreende e entristece é ver uma comunidade acadêmica entorpecida por sebastianismo primário, e se dispor a fazer coro a esse movimento intimidatório. Vejam a gravidade da tese que desacredita o Poder do Judiciário em sua essência, de analisar as provas e decidir conforme sua convicção”.

“Lamentavelmente, Lula se corrompeu”, disse um dos desembargadores. Na verdade, desde o Mensalão, Lula fez vista grossa, não viu ou não quis ver nada, ou não pode reagir aos desmandos que estavam ocorrendo no seu Governo, mais tarde de conhecimento de todo o Brasil. E, que, por incrível que pareça, apesar das condenações de principais figuras do PT- Dirceu, Genuíno, Delúbio e outros, continuaram, chegando à Lava Jato. Como disse o relator: “

“A atuação do apelante Luiz Inácio Lula da Silva decorreu do amplo apoio que deu para funcionamento desse sistema ilícito na captação de recursos, com a interferência direta na nomeação de dirigentes da estatal, os quais deveriam obter recursos em favor dos partidos aliados e mais especificamente ao PT.”

A grande questão é: vai se mudar o acórdão, anulá-lo no STJ ou STF, já que a defesa não pode usar os Embargos Infrigentes- pois a decisão foi unânime? Creio que, a anulação de uma decisão dessas, tem várias consequências:1- uma desmoralização do TRF-4, levando insegurança jurídica em outros julgamentos do Tribunal e de outros Tribunais de instância superior.

Os julgadores pensarão: valerá nossa decisão ou dependerá do Réu? 2- Será o coroamento da estratégia usada pelos apoiadores de Lula e do próprio PT de ganhar no grito, na força, na coação; já que iria” morrer muita gente”, como disse a Senadora Gleisi Hoffman- Presidente do PT, então, que morra a justiça.

3- Lula afinal, como sempre agiu, se sentirá vitorioso, pois permanecerá acima da lei. 4- Dará crédito ao mito de estar sendo julgado a pessoa de Lula, perseguido, injustiçado. Como disse um dos desembargadores:Nós não julgamos pessoas. Nós julgamos os fatos.”.

5- Voltaríamos a antiga impunidade, que era um sistema absolutamente único no mundo que, mais do que assegurar a não efetividade da justiça, era o mapa da mina dos criminosos poderosos, pois retardava absurdamente o início do cumprimento da pena, muitas vezes, como é sabido, prescrevendo, via recursos infindáveis e protelatórios.

6- O STF- tão desmoralizado atualmente, poderá aumentar mais ainda seu descrédito, se anular essa decisão, mesmo reexaminando a prova, se entender que não houve justa causa para a condenação. O famoso “in dúbio, pro réu”.

7- Será um presente de Natal antecipado para os demais réus da Lava Jato, principalmente os políticos, mais de 100 no STF, pois despertará o sentimento de “posso ser Lula amanhã”; aliás, diz-se, “onde passa um boi, passa uma boiada”.

8- Por fim, sepultaremos, sem lágrimas e flores, a Lei da Ficha Limpa, que dispõe que um candidato condenado por um colegiado por crimes como corrupção passiva e lavagem de dinheiro fica automaticamente inelegível. Esse é justamente o caso do ex-presidente Lula.

Disse um dos ministros do TSE: “É um prato que já está feito. Praticamente, vamos nos reunir apenas para uma formalização do que já deixa claro a Lei da Ficha Limpa”- (G1,25/01). É esperar prá ver, dado o recente episódio do julgamento da chapa Dilma/Temer, absolvida por “excesso de provas”. Para o bem do Brasil e de sua Justiça, apesar de sua sempre instável democracia, seria recomendável que a inelegibilidade de Lula fosse acatada pelo TSE, cumprindo a Lei da Ficha Limpa, que sobre ela se debruçara quando da inscrição do candidato, pois, por certo, impugnações não faltarão.

“Lula – um líder aspirando cada vez mais pompa e tropeçando cada vez mais nas circunstâncias.” Millôr Fernandes.

 

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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