Opinião
O MANÁ NÃO É PARA TODOS?
Opinião
Por: Auremácio Carvalho
Uma criança de 08 anos desmaiou de fome na escola em Brasília-DF, capital desse país do carnaval. Dizem ainda os jornais, que a diarista Kelly Cristina Caetano, de 44 anos, vive em um apertado barraco em Cidade Estrutural, comunidade erguida no entorno de um lixão do Distrito Federal. As paredes de madeira compensada mostram-se incapazes de aplacar o calor que castiga o Centro Oeste nesta época do ano. Tampouco protegem a família dos ataques de ratazanas. “Meu filho chegou a ficar internado após receber uma mordida. Fiquei desesperada, a mão dele inchou e não parava de sangrar”, conta. Apesar das agruras, Kelly demonstra uma inabalável confiança num futuro melhor. “Agora estamos bem melhor. Ao menos não falta comida em casa”. Aliás, no Brasil varonil, a maioria das crianças frequenta a escola por comida, não em busca de alfabetização ou, outra balela, de “socialização”. Enquanto isso, os jornais de noticiam que “O governo anunciou nesta sexta-feira, 17, que vai liberar R$ 7,51 bilhões de recursos que estavam retidos no Orçamento. Desse total, R$ 595,6 milhões serão destinados, até o fim do ano, a emendas parlamentares, em uma tentativa do Planalto de melhorar o clima com o Congresso no momento em que o governo precisa de apoio para aprovar medidas econômicas impopulares, como a reforma da Previdência.” (G1). Famílias inteiras vivem do lixão nas Capitais e demais cidades; não só como fonte de renda, mas- não se espante o leitor/a- coletando sobras de alimentos para matar a fome dos filhos; roupas, sapatos, brinquedos quebrados. Apesar dos grandes avanços econômicos, sociais, tecnológicos, a falta de comida para milhares de pessoas no Brasil continua. Esse processo é resultado da desigualdade de renda, a falta de recursos faz com que cerca de 12 milhões de pessoas passem fome, e mais de 65 milhões de pessoas que não ingerem a quantidade mínima diária de calorias, ou seja, se alimentam de forma precária. O difícil é entender um país onde os recordes de produção agrícola, graças ao agronegócio, se modificam de maneira crescente no decorrer dos anos, enquanto a fome faz parte do convívio de um número alarmante de pessoas. No mundo cerca de 100 milhões de pessoas estão sem teto; existem 1 bilhão de analfabetos; 1,1 bilhão de pessoas vivem na pobreza, destas, 630 milhões são extremamente pobres, com renda per capta anual bem menor que a 02 dólares/dia; 1,5 bilhão de pessoas sem água potável; 1 bilhão de pessoas passando fome; 150 milhões de crianças subnutridas com menos de 5 anos (uma para cada três no mundo); 12,9 milhões de crianças morrem a cada ano antes dos seus 5 anos de vida. (ONU). Ou seja, em todo mundo e no Brasil, uma tragédia a anunciada, dispersa, silenciosa, escondida nos rincões e nas periferias. Tão escondida que o Brasil que come não enxerga o Brasil faminto e aí a fome vira só número, estatística, como se o número não trouxesse junto com ele, dramas, histórias, nomes, horrores. Na inversão do ciclo da vida, proeza é criança viva, bebê recém enterrado, é acontecimento banal. No Brasil, a cada cinco minutos, morre uma criança. A maioria de doenças da fome. Cerca de 280 por dia. É o que corresponderia, de acordo com o Unicef, a dois Boeings 737 de crianças mortas por dia. Um detalhe: neste ano, o Brasil voltou para o mapa da fome… grande conquista governamental e política. Vamos ressuscitar o Fome Zero? O Brasil é o vice-campeão mundial de concentração de renda, só perdemos para Serra Leoa, um país africano. O IPEA instituto de estudos ligado ao Ministério do Planejamento, diz que mesmo assim lá há menos famintos do que no Brasil. Soa estranho falar em “escassez de alimentos” no Brasil, já que por aqui são produzidas anualmente aproximadamente 170 milhões de toneladas de alimentos, ou seja, com muito menos de um por cento dessa produção, já seria possível alimentar mais que o dobro da população que hoje ainda passa fome no Brasil. E, os nossos políticos o que tem a ver com isso? Nada. Passam o tempo- em Brasília e nas “bases”- barganhando cargos, benesses para os apaniguados, propinas, etc; embora, não se possa generalizar, pois há políticos que ainda prestam. E, outros se esforçam salvando os colegas da justiça e da cadeia- MT, Rio, RN- e a moda está se espalhando. Depois da desastrosa decisão do STF, disse-me um colega, “nem suplente de Vereador vai mais ser preso no Brasil”. Políticas públicas, saúde, educação, renda, lazer? São temas que não interessam aos nossos políticos e governantes, a não ser em épocas pré-eleitorais. “O Brasil sempre foi um país da geografia da fome”, como nos alertava Josué de Castro, desde a década de 1940. E, parece que vai demorar a mudar. É preciso dizer, porém, que a pobreza não é uma condição exclusiva de uma região ou outra, como se costuma pensar. Praticamente, todas as cidades do país (principalmente as periferias dos grandes centros metropolitanos) contam com pessoas abaixo da linha da pobreza. Afinal, Brasília não está situada nos grotões ou “no nordeste”. Será que pobre faminto dá voto? Ou, dito de outro modo: será que, em 2018, vamos aprender a votar? Ou, exigir que não se pague anualmente mais de 400 bilhões de juros da dívida pública? Muitos patriotas já estão surgindo, salvadores da pátria. Mas, é bom não esquecer: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.” Nelson Rodrigues.
* Auremácio Carvalho é Advogado.
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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