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China impõe tarifa de 55% e agrava pressão sobre carne brasileira já barrada na Europa

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A carne bovina brasileira chega a outubro pressionada simultaneamente em dois dos mercados mais importantes do mundo. A China começará a cobrar, a partir desta quinta-feira, 1º de outubro, uma tarifa adicional de 55% sobre os embarques do Brasil. Na União Europeia, o produto continua suspenso. Os Estados Unidos surgem como uma possível válvula de escape, mas o acesso também depende de cotas, tarifas e disputa com outros fornecedores.

A medida chinesa entrou em vigor depois que os embarques brasileiros atingiram, em 29 de setembro, o limite anual de 1,106 milhão de toneladas estabelecido por Pequim. Pela regra, a sobretaxa começa a ser aplicada no terceiro dia após o preenchimento integral da cota. O adicional de 55% será cobrado sobre a tarifa de importação já existente.

A China não fechou formalmente o mercado, mas a nova tributação reduz drasticamente a competitividade da carne brasileira. Frigoríficos ainda poderão exportar, desde que o importador chinês aceite pagar o custo adicional. Na prática, a tendência é de retração dos negócios até janeiro, quando começa a vigorar uma nova cota anual.

O impacto é ampliado pelo peso chinês na pecuária brasileira. Em 2025, o país asiático comprou 1,648 milhão de toneladas, mais da metade das 3,091 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil. A receita obtida com essas vendas correspondeu a aproximadamente R$ 46,2 bilhões, considerando a conversão pela cotação de R$ 5,22.

A cota fixada para 2026 ficou cerca de 33% abaixo do volume adquirido pela China no ano passado. A diferença mostra que a restrição não representa apenas uma interrupção pontual. O limite foi estabelecido em patamar incompatível com o ritmo que o comércio entre os dois países havia alcançado.

Os efeitos começaram a aparecer antes mesmo do esgotamento da cota. Em agosto, as exportações brasileiras de carne bovina somaram 233,5 mil toneladas, com forte redução das compras chinesas. Nos primeiros 18 dias úteis de setembro, o Brasil embarcou 176,3 mil toneladas de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada. A média diária ficou 29,9% abaixo da registrada no mesmo período de 2025.

A restrição chinesa encontra o setor às voltas com outra barreira. Desde o início de setembro, a União Europeia mantém suspensa a entrada de carne bovina brasileira e de outros produtos de origem animal, após a entrada em vigor de novas exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos.

Uma auditoria europeia realizada no Brasil concluiu que as cadeias de carne de aves e mel atendem às exigências do bloco. O resultado poderá permitir a retomada desses dois produtos, mas não alcança a carne bovina. A situação do produto continuará dependendo de novas avaliações e de entendimento entre as autoridades sanitárias.

A estimativa do setor é que a suspensão europeia retire aproximadamente 70 mil toneladas de carne bovina brasileira do mercado entre setembro e dezembro. O impacto potencial se aproxima de R$ 3,7 bilhões. Embora o volume destinado à Europa seja menor que o enviado à China, o mercado europeu compra cortes de maior valor e tem importância estratégica para os frigoríficos.

O cenário nos Estados Unidos é mais favorável, mas está longe de compensar automaticamente as perdas. De janeiro a agosto, as vendas brasileiras de carne bovina ao mercado norte-americano movimentaram cerca de R$ 10,4 bilhões, crescimento de 24,75% sobre o mesmo período de 2025.

O governo norte-americano ampliou temporariamente em 300 mil toneladas a cota de importação de carne bovina com tarifa reduzida. O volume foi dividido em três parcelas, disponíveis entre setembro e novembro. A medida procura aumentar a oferta de carne magra utilizada na fabricação de hambúrgueres e conter a alta dos preços para o consumidor dos Estados Unidos.

A abertura representa uma oportunidade, mas a cota não é exclusiva do Brasil. Os frigoríficos brasileiros disputam o espaço com fornecedores de outros países, e as vendas realizadas fora dos limites tarifários continuam sujeitas a tributação mais elevada. A carne bovina também foi excluída da nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos a determinados produtos brasileiros, o que evita um obstáculo adicional.

O Brasil permanece como maior exportador mundial de carne bovina e aparece à frente dos Estados Unidos na projeção de produção do Departamento de Agricultura norte-americano para 2025/26, com 12,61 milhões de toneladas. Essa força, no entanto, convive com elevada concentração das vendas em poucos compradores.

Quando China, União Europeia e Estados Unidos adotam cotas, tarifas ou exigências sanitárias, os efeitos chegam rapidamente aos frigoríficos e ao pecuarista. A redução das exportações pode diminuir a demanda por animais para abate e pressionar a cotação da arroba. Parte da carne que deixaria de ser embarcada também pode permanecer no mercado interno, aumentando a oferta, embora o preço ao consumidor dependa de fatores como custos industriais, transporte, câmbio e fase do ciclo pecuário.

A crise expõe a necessidade de acelerar a abertura de mercados e reduzir a dependência de um único destino. México, Filipinas, Chile, Emirados Árabes Unidos e outros compradores ganharam espaço nos últimos anos, mas ainda estão longe de absorver rapidamente o volume movimentado pela China.

O desafio brasileiro deixou de ser apenas produzir mais. A maior pecuária exportadora do mundo precisa garantir acesso permanente aos mercados, adaptar-se às exigências sanitárias e ambientais e distribuir melhor suas vendas. Sem essa diversificação, cada nova decisão tomada em Pequim, Bruxelas ou Washington continuará repercutindo diretamente dentro das fazendas brasileiras.

Fonte: Pensar Agro



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Solo bem manejado eleva rendimento e dobra ajuda do governo no seguro rural, diz Embrapa

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Uma pesquisa da Embrapa Agropecuária Oeste, realizada durante 28 safras em Dourados, em Mato Grosso do Sul, mostrou que cada avanço na qualidade do manejo do solo acrescentou 11,1 pontos percentuais à produtividade relativa da soja. O resultado já terá efeito no bolso do produtor: na safra 2026/27, as lavouras classificadas no nível mais alto poderão receber o dobro da subvenção federal destinada ao pagamento do seguro rural.

O estudo acompanhou cultivos entre 1998 e 2026 e reuniu informações de mais de 4,3 mil pontos georreferenciados. Os pesquisadores compararam desde áreas conduzidas com preparo convencional e monocultura até sistemas de plantio direto, rotação de culturas e integração lavoura-pecuária.

No nível mais baixo de manejo, chamado NM1, a produtividade relativa média ficou em 44%. No NM2, subiu para 55,1%; no NM3, chegou a 66,2%; e, no NM4, alcançou 77,2%. A diferença entre os dois extremos foi de 33,2 pontos percentuais. Em termos relativos, o desempenho do melhor sistema ficou aproximadamente 75% acima do registrado no pior.

Os números não significam, porém, que a mudança de nível acrescentará automaticamente determinada quantidade de sacas por hectare. A produtividade real variou de cerca de duas a 90 sacas por hectare ao longo das 28 safras, conforme o volume e a distribuição das chuvas. O indicador serve para mostrar quanto cada sistema conseguiu produzir diante das condições climáticas enfrentadas.

A vantagem do manejo mais eficiente apareceu principalmente nos anos com deficiência hídrica moderada. A cobertura permanente do solo reduz a perda de água por evaporação, enquanto a rotação de culturas e a presença de raízes em diferentes profundidades favorecem a infiltração e o armazenamento de umidade.

“Solos bem manejados armazenam mais água e permitem que as raízes explorem camadas mais profundas”, explica o pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste.

O manejo não elimina os prejuízos provocados por uma estiagem extrema. Em algumas das safras acompanhadas, áreas de cultivo convencional chegaram a registrar perda total. Os sistemas mais estruturados também sofreram redução de produtividade, mas apresentaram maior capacidade de suportar períodos menos severos de falta de chuva.

A conclusão tem peso especial em Mato Grosso do Sul, onde a soja da safra 2026/27 começa a ocupar uma área estimada em 4,87 milhões de hectares. A Aprosoja/MS projeta produtividade média de 52,4 sacas por hectare e produção de 15,33 milhões de toneladas. Na temporada anterior, a média estadual chegou a 60,4 sacas por hectare.

Além de influenciar o rendimento, a qualidade do manejo passará a interferir no custo do seguro. Na fase experimental do Zoneamento Agrícola de Risco Climático por Níveis de Manejo, o ZarcNM, a subvenção federal ao prêmio do seguro da soja será de 20% para o NM1, 30% para o NM2, 35% para o NM3 e 40% para o NM4.

Na prática, a porcentagem incide sobre o preço da apólice, e não sobre o valor total da lavoura. Em um exemplo simples, se o prêmio do seguro custar R$ 100 mil, um produtor classificado como NM1 receberá R$ 20 mil de subvenção e ficará responsável por R$ 80 mil. No NM4, a ajuda sobe para R$ 40 mil e o desembolso do produtor cai para R$ 60 mil, antes da aplicação de eventuais limites do programa.

A diferença representa redução de 25% no valor pago pelo agricultor nesse exemplo. A proposta é reconhecer que áreas conduzidas com melhor cobertura, rotação e correção do solo apresentam menor vulnerabilidade às oscilações climáticas.

“Isso contribui para o acesso mais justo ao seguro agrícola, pois considera não apenas o clima e o solo, mas também a forma como o produtor conduz a lavoura”, afirma a pesquisadora Michely Tomazi.

Para a soja, o ZarcNM será adotado experimentalmente na safra 2026/27 em Mato Grosso do Sul e nos estados da Região Sul. O sistema também será utilizado para o milho segunda safra em Mato Grosso do Sul e no Paraná.

A classificação considera seis indicadores: tempo sem revolvimento do solo, cobertura antes da semeadura, saturação por bases na camada superficial, presença de cálcio em profundidade, saturação por alumínio no subsolo e diversidade de culturas nos três anos anteriores.

O produtor interessado deverá começar pela análise do solo. Os resultados serão inseridos no Sistema de Informações de Níveis de Manejo. Dados sobre a propriedade, o histórico da área e as culturas utilizadas completarão a avaliação.

O novo modelo não premiará apenas quem declara utilizar plantio direto. Será necessário demonstrar a qualidade do sistema. Para o agricultor que já mantém palhada, faz rotação, corrige o perfil do solo e registra o histórico dos talhões, a organização dessas informações poderá significar maior resistência da lavoura à seca e menor custo para contratar o seguro rural.



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